Feeds:
Posts
Comentários

Conselhos de uma mãe feminista.

Minha mãe é feminista. Parou de militar faz tempo, mas se descobriu e participou de coletivos antes de eu nascer. Isso significa que em 1999, quando eu tinha 12 anos, ela já era feminista. Não havia esse espaço do discurso feminista apropriado por músicas, novelas e propagandas como há hoje nem havia as redes sociais, o que significa que ela foi minha primeira fonte de feminismo.

maefeminista

 

 

Só hoje, super adulta, entendo como fez diferença ouvir conselhos que ela me deu, que nem sempre vinham acompanhados de “vou te ensinar algo que aprendi com o feminismo”. Lendo a última polêmica feminista, decidi fazer aqui uma compilação de conselhos que eu ouvi e que tenho vontade de espalhar pra adolescentes e mesmo amigas mais jovens. Fica aqui a lista da (minha) mãe feminista. Que fique claro que ela não é universal, são coisas que minha mãe me falou e que podem ser diferentes do que outras mulheres pensam:

–  Menstruação, primeiro beijo, primeira vez, casamento e filhos são considerados marcos na vida das mulheres, ainda que nem todas casem e tenham filhos. Mesmo hoje, eles ainda são vistos como rituais que tornam a mulher uma verdadeira mulher. Isso  precisa ser relativizado e é preciso tomar cuidado, porque muitas mulheres vão tratar esses assuntos como símbolos da sua essência feminina e estabelecer uma competição com a amiga. A Simone de Beauvoir  no Segundo Sexo, livro que virou obrigatório para as feministas, questiona essa essência e a ideia de que uma mulher é mais ou menos mulher do que outra.Não é dando seu primeiro beijo ou tendo um filho que você vai se tornar mais mulher ou menos mulher.

–  Nós mulheres somos criadas para competirmos entre nós, mas é possível haver amizades femininas que saiam do registro da competição. Somos aliadas, não rivais.

– A primeira vez de uma mulher não precisa ser dolorida. Se há dor, poderíamos lembrar da dor do parto, que nunca é uma experiência só de dor. Você precisa querer aquilo, ter desejo, e uma dor com desejo será totalmente diferente e uma dor de pânico. Há feministas que defendem que as mulheres rompam seus hímens sozinhas antes de terem relações sexuais com mulheres ou homens. Isso não anula uma possível dor da primeira vez, mas pode deixar a pessoa mais segura.

– Uma vez que existe o desejo – porque nenhuma mulher deve cair no papo do homem que diz “ah, sempre vai doer muito, então tenha a primeira vez comigo” – pode ser que, mesmo assim, a mulher fique nervosa. Se for assim, vale fazer algo que ajude a relaxar, tipo beber uma taça de vinho ou viajar até a Holanda com o namorado e fumar um [a parte da viagem com a Holanda fui eu que sugeri agora pros conselhos correrem dentro da legalidade da república Temer]

– Dor no sexo, aliás, não acontece só na primeira vez, e não deve ser aceita passivamente. Em qualquer momento a mulher pode falar com seu parceiro do que está acontecendo e pedir pra ele parar.

– Falando em drogas, todo mundo têm o direito de experimentá-las e depoimento nenhum vai substituir a experiência. Mas se for experimentar, e isso inclui o álcool, esteja ao lado de amigos em que você confia! Garanta que, se você passar mal, vai ter alguém do seu lado pra cuidar de você. No caso da bebida, mesmo se você já tiver experiência, beba sempre água e beba de estômago cheio, isso faz muita diferença (prazer, Natália, foram poucas as ressacas muito ruins que tive na vida).

[Bônus da Natália: há muitas vítimas de estupro que não estão conscientes quando estupradas. A culpa NUNCA é delas e o estupro pode acontecer em situações inesperadas, mas ter pessoas cuidando de você quando você está inconsciente diminui o risco do estupro. Bônus 2: mesmo com todas essas precauções, se algo acontecer, a culpa é do estuprador, óbvio!]

– Pessoas que não entendem “como a pessoa engravida hoje em dia”, não entendem duas coisas. 1- Métodos contraceptivos podem falhar. Mesmo a mulher mais certinha e prevenida pode engravidar sem querer ou precisar tomar a pílula do dia seguinte. Isso não diz nada sobre ela e ela não merece ser punida por causa disso. 2- Estudos mostram que a maioria das mulheres que decide engravidar está em situação de dúvida. Mesmo aquelas casadas que já têm o enxoval do bebê e sonham em ser mães. Porque engravidar e ser mãe é uma baita mudança na vida e é normal que as mulheres hesitem depois de tomarem a decisão. Essa hesitação pode acontecer com mulheres que não querem ser mães, mas que engravidam porque se descuidam – nesse caso, pode haver um desejo de ser mãe que elas ainda não elaboraram. Nenhum dos dois casos deve ser exemplo para culpabilizarmos as mulheres quando elas hesitarem.

– Se depois da hesitação a mulher decidir fazer um aborto, isso não deve ser motivo de culpa. O grande problema são as clínicas, que podem ser perigosas para a saúde da mulher. E é por isso que devemos lutar pra legalizar o aborto no Brasil.

–  Já que estamos falando de saúde, pílulas podem ser super perigosas, sobretudo de a pessoa que usa fuma ou tem maior propensão à trombose. É muito importante investigar esses riscos antes de tomar anticoncepcionais.

– A pílula, num namoro, faz parte da decisão de um casal de não ter filhos. Por isso, é válido rachar o seu custo com o namorado.

– Mulher pode e deve comprar camisinha na farmácia.

– Já que falamos em saúde 2, não são só remédios comprados em farmácia que podem curar infecções e TPMs. Bem antes da Bela Gil e cia já havia Sônia Hirsch, que minha mãe me apresentou e que me deu ótimos dicas sobre saúde feminina.

– Se uma mulher tem infecção urinária e não tem acesso ao antibiótico necessário (numa viagem ou então num dia em que não consegue ir ao médico e descolar a receita), é muito importante: beber muita água, evitar pimenta e comer frutas cítricas e berries. Suco de cranberry é um remédio preventivo! Todas as frutas vermelhinhas são remédios contra a infecção urinária. É um mito achar que ela só é adquirida numa relação sexual. Biquíni molhado por muito tempo e segurar a vontade de fazer xixi pode deixar uma mulher com essa infecção. Infelizmente, temos muito mais propensão a pegar uma infecção dessas do que os homens. Os sintomas costumam ser dor ao ir fazer xixi e uma sensação de aperto que não passa. Muito cuidado, porque se ela não é tratada, pode ir pro rim.Ah, importante: você não transmite infecção urinária pro parceiro! Não é o contato com o seu corpo que vai deixá-lo com essa mesma infecção. O mesmo não pode ser dito de outras doenças, que ele pode passar pra você também.

[Bônus-conselho-da-filha: pode parecer meio mainstream demais num momento em que tudo é fitness, mas muita água, cenoura crua e musculação curaram minha TPM e me livraram de um combo de anti inflamatório e anti depressivo que uma médica para aliviar os sintomas disso que, infelizmente, algumas mulheres têm]

–  Não é verdade que as mulheres têm que ser inferiores aos homens. E é possível ser a melhor aluna da classe. Há homens que vão valorizar mulheres inteligentes

[Bônus da produção mãe e filha das cápsulas de auto ajuda: se o cara te colocar num pedestal alto demais ou se ele soltar frases como “você é tão inteligente, o que está fazendo comigo?” é bom se perguntar se a relação não é uma grande armadilha em que, depois de te idolatrar, o cara vai querer sair por cima. Grandes assimetrias nunca dão certo, não só no amor, mas em qualquer relação – palavra de mãe não mente, hein?]

–  Voltar pra casa à noite acompanhada é sempre uma boa. E às vezes vale gastar um pouco a mais de táxi ou dormir na casa de amigos do que se arriscar a fazer o caminho sozinha.

– A grande maioria dos homens que bate em mulheres ou namoradas costuma pedir desculpas com flores e muito arrependimento. Essas desculpas, no entanto, não costumam garantir que aquela seja a única vez em que a violência acontece. Por isso que o lema do feminismo já foi “quem ama não bate, quem ama não mata”. Não acredite nas desculpas de um agressor. Acredite que há homens que amam e não batem, isso sim.

 

 

 

______________________________________

Último bônus: a mãe da minha mãe não era feminista. No entanto, sempre me contou que meu avô era um homem delicado e respeitoso que a tratou como princesa. Ela ajudou muito nessas cápsulas de auto ajuda familiares, porque eu precisei pensar muitas vezes que havia homens capazes de tratar bem mulheres, de amá-las e respeitá-las. Deixo aqui esta última sabedoria familiar para que relações com “os hômi” machistas ao extremo não sejam o destino das mulheres que se relacionam com homens. É preciso pensar em referências boas para construir destinos melhores que não nos coloquem sempre como vítimas, injustiçadas e agredidas. Política, para mim, continua sendo possibilidade de enxergar um futuro melhor. Acreditar que há homens bacanas, dispostos a se desconstruir e ter uma relação saudável, faz parte desse horizonte.

 

 

Anúncios

Conhecemos a história Um Bonde Chamado Desejo. E se não conhecemos, recebemos um pequeno roteiro na abertura da peça Blanche, de Antunes Filho, e somos aconselhados a lê-lo. Nove cenas que descrevem sucintamente a história criada pelo dramaturgo Tennessee Willians, em 1947, e transformada em filme pelo diretor Elia Kazan em 1951. Estamos diante de um clássico, recontado e reencenado muitas vezes nesses quase 70 anos de sua publicação. Na fala inicial, a atriz que abre a peça nos passa essas recomendações e nos explica que a peça será falada em fonemol, língua inventada por Antunes. Cabe a nós, expectadores, inventarmos nossa própria dramaturgia. Depois dos 5 minutos deixados para que leiamos o pequeno roteiro, a mesma atriz volta. Agora já não estamos diante de alguém que fala nossa língua.

Que língua é essa que nos escapa? No início, algo nos lembra o russo. Mas bastam umas poucas falas para que outros idiomas nos venham à cabeça. Stanley às vezes fala com a entonação de um brasileiro, embora traga uma braveza espanhola em alguns de seus atos. Blanche tem frases na cadência francesa. Stella e suas vizinhas nos lembram o italiano carregado. Vez ou outra, aparece-nos um som familiar: Blanche, Stanley, Stella, Eunice, Mitch, virgem, capricórnio, Código Napoleônico, coca-cola. São pequenos ganchos que nos situam no fluxo estranho do fonemol para depois nos jogarem de novo naquela língua desconhecida. Somos todos estrangeiros: nós, inventando conteúdos possíveis para algo que desconhecemos, e elas, as personagens, reencenando um clássico que conhecemos, mas tornando-o inapreensível.

Fonemol é um murmúrio. Língua cantada, cuja entonação da voz das personagens e o conjunto de gestos nos guiam para tentativas de compreensão do que está sendo dito. Diante dos diálogos, preenchemos as falas com conteúdos imaginados. Estará Blanche reclamando da precariedade da casa de Stella? Que nomes Stanley dá à cunhada que chegou? Quais frases Stella escolhe na tentativa difícil de conciliar o marido e a irmã mais nova?  Entendemos toda a peça. E no entanto, ela permanece um mistério. Nosso texto se arrisca, mas nunca nos autoriza a traduzir aquele significante. Na melhor das hipóteses, diríamos que tudo se passa como se, esse clichê que poderia ser legenda de toda obra de arte. Tudo se passa como se as personagens dissessem isso ou aquilo. Mas nada, nada nos autoriza a ter certeza disso. Estamos no terreno movediço da obra.

Nossa linguagem cotidiana tem, como notaram os leitores apaixonados do poeta Mallarmé, função de moeda de troca. Usamo-as para tomar posse e designar objetos e seres. Pois mesa é um som que faz alusão à mesa da qual falamos. E feio, bonito, fascista, imbecil, são nomes que damos para determinar algo que nos aparece. Palavras no seu uso corrente nos dão essa ilusão: conseguimos determinar o indeterminado que é o outro. E outro é tudo: os objetos, as pessoas, os fenômenos da natureza e tudo o que se apresenta fora de nós. Este uso empobrece a linguagem, cuja plasticidade é substituída por um sentido cristalizado. É isto e não é aquilo. Engessada, é ela que proferimos no dia a dia em que o mundo se apresenta como pronto, fixo, imutável.

Mas o mundo nunca está acabado. O mundo, fazendo uma leitura sem muita responsabilidade de Nietzsche e de muitos que vieram depois dele, é um livro falado em fonemol. Podemos conhecê-lo de fato? Provavelmente não. O que chega até nós é este murmúrio. Palavra cantada, conjunto de sons que não nos oferecem nada de fixo. Stanley e código napoleônico são indícios. Durante a peça, eles nos fazem sair da obra e voltar à terra firme das coisas que podemos nomear. Mas a obra ainda está ali e o murmúrio desconhecido volta, estremecendo nossas certezas.

O fonemol estremece, mas também nos traz a reminiscência de algo que a cultura nos fez perder. Sem sabermos o significado de cada palavra, olhamos melhor os corpos. Sua dança, suas hesitações, sua fúria. E ouvimos a voz, lembrando que também ela é capaz de dar sentido a este enigma que é o mundo. Na peça, temos a impressão de ouvir a mesma frase muitas vezes e de, no entanto, ouvirmos coisas diferentes. O que determina a carga da mesma frase  é a maneira como ela é dita. Blanche e Stanley podem dizer exatamente a mesma coisa. Mas nunca dirão o mesmo, uma vez que as palavras estão encarnadas em corpos distintos. Assim o corpo, que no nosso mundo explicado e fechado é só um portador da linguagem, volta a ser – como em todas as boas peças – parte dela.

Temos então o corpo de Blanche. Na peça de Antunes, Blanche é encenada por um ator e aparece em cena com o rosto pintado de branco, cuja maquiagem lembra um pouco um clown. O branco da face não é só alusão ao nome. Marca a diferença da mocinha recém chegada em relação às outras personagens: Blanche é um corpo estranho. Tennessee Willians publica a peça menos de dez anos após a morte de Freud. A psicanálise já não é novidade, mas o corpo feminino ainda é um escândalo. As histéricas enfim escutadas por Freud tiveram sua dor considerada. Mas são os anos 40 e as mulheres ainda não têm a liberdade que têm hoje. Hoje talvez seja forçado dizer que toda mulher precisa casar para sobreviver ou que toda mulher que frequenta o mesmo hotel com vários homens terá sua imagem arruinada.  Mas Blanche não é só todas as mulheres. Judith Butler diz que o feminismo não deveria ser só o movimento das mulheres, mas a luta em defesa de todos os corpos estranhos à norma. Os negros, os gays, os transsexuais, os refugiados. Corpos marginalizados, cujas palavras, longe de serem o murmúrio desconhecido da peça de Antunes, invadem e determinam: puta, viado, preto, traveco etc..

bb275c08-e114-40ae-9743-b103659ae652

A violência contra os corpos se dá na linguagem, mas não apenas. Tudo que é estranho à norma é violentado, estuprado. E aqui, não nos referimos só a essa atrocidade cometida contra mulheres, crianças e corpos frágeis há tanto tempo. O estupro, como coloca a citação presente no programa da peça, é “a representação crua e direta do exercícios do poder. Designa um denominador e organiza as leis do jogo para que possa exercer seu poder sem restrições” (Virginie Despentes, Teoria King Kong). Vivemos a cultura do estupro e consumimos uma cultura que, na sua essência, estupra-nos, como faz a coca-cola, grande símbolo dessa cultura que anula as particularidades de cada lugar se impondo como bebida universal, cujo nome se diz da mesma forma em todos os idiomas. Líquido corrosivo e viciante, representante da cultura de massas, desta produção anônima e devastadora que tenta, sem cessar, calar as vozes do fonemol.

O estupro de Blanche é, pois, o estupro que vai além da violência contra uma mulher. Estuprada, Blanche não consegue mais articular as palavras do fonemol e ouvimos, talvez, algo que precede a linguagem: vogal prolongada do grito de dor. Sofrimento que não tem nome, que a língua falada não alcança. E porque quase todos escapam aos ideais da norma, somos todos um pouco Blanche, e compartilhamos juntos essa dor inominável, guardando com a personagem essa posição de estrangeiros que não se aproximam. Não aproximação do estrangeiro: talvez a única maneira de manter a alteridade na sua radicalidade sem  submetê-la aos terrível poder da cultura e da linguagem.

_____________________________________________

Ter assistido essa peça no dia em que o Ministério da Cultura foi extinto me provocou uma dor sem igual. Fica aqui minha aposta nessa arte murmurante que dribla a norma e nos faz experimentar o estremecimento do mundo. É ela que eu espero, como o murmúrio por vir nunca totalmente apreendido. Uma tímida esperança em tempos da palavra firme e violenta.

No ano retrasado, acho que no dia 23 de dezembro, li uma entrevista com nutricionista da USP que achei genial. Ela condenava essas dietas insanas que entram na moda, como aquela em que a pessoa fica só comendo proteína. Isso, só comendo proteína – não sei em você que está lendo, mas aqui dentro de mim eu sinto um vazio no estômago e vislumbro um dos círculos do inferno em que garçons sarados me oferecem barrinhas de Whey. Bom, pois é, essa nutricionista falava de dietas de gente como a gente, que não vivem só para malhar o corpo, e que são muito mais tranquilas. Achei que a entrevista merecia ser compartilhada e postei no facebook, incluindo a frase “melhor viver sem culpa do que viver sem glúten”.

612178-Receita-de-sequilhos-de-leite-condensado-1-630x340

 

Melhor viver sem culpa do que sem glúten. Meu mantra, aquele tipo de frase que é como a presença de deus pros infiéis – você pode não acreditar, mas existe, está em você, existia antes de você. Passei a repeti-lo entre uma refeição e outra, nos três lanches da tarde que faço quando trabalho em casa, no sorvete que eu me permitia tomar nesses dias de calor tórrido em São Paulo, na pipoca doce caseira que virou meu vício em 2015. Ainda sigo deitando semanalmente no divã, trazendo à tona as mesmas questões, entediando a mim e a minha analista, a culpa sempre volta. Às vezes, num momento de distração, uma frase pouco usual me escapa, a analista já está preparada com seu chicote. Dá-me uma bela chicotada, depois me manda embora. Eu saio com lágrimas nos olhos, o chão parece tremer, minhas certezas vão ruindo. Ando duas quadras e dou de cara com um árabe sensacional, uma das melhores esfihas de São Paulo. Contra toda a angústia e preenchendo o vazio existencial: algumas esfihas. E o mundo volta a ser um lugar habitável. Melhor viver com culpa, mas também com glúten.

Acontece que eu sofro de enxaquecas. Há épocas em que elas somem, há épocas em que elas me dominam. E houve um ano – 2014 – em que eu, homenageando um dos títulos de Kafka (será que Kafka comia glúten? Pausa para outra visão de um círculo do inferno: insetos, ambiente sombrio, uma repartição pública, um processo com o meu nome, muito sofrimento, ausência de respostas. Vou ao corredor da repartição, não há uma máquina de café, um pote de balas, nada) eu me metamorfoseei numa enxaqueca. Eu a enxaqueca nos tornamos a mesma. E não havia pote de sorvete que me tirasse daquela crise. Fato é que o ano foi produtivo na análise, minha analista comprou até um conjunto de correntes para aprimorar as sessões,  e uma espada Hatori Hanzo para me dar cortes precisos, mas só a elaboração ali, no divã, olhando para a parede, não foi suficiente. Depois de dez anos da minha primeira crise, aceitei o que era repetido até em sabedoria de televisão do metrô: a alimentação tem tudo a ver com as suas dores.

Vamos colocar no repeat porque foi difícil aceitar: a alimentação tem tudo a ver com as suas dores. A alimentação tem tudo a ver com as suas dores, a alimentação tem tudo a ver com as suas dores, a alimentação tem tudo a ver com as suas dores, a alimentação tem tudo a ver com as suas dores. Ok.

Aceitar essa verdade, que tal como deus, já estava lá, embora eu a rejeitasse, me rendeu muita coisa boa. Parei o vinho tinto, diminuí o álcool em geral, diminuí muito o chocolate, cortei o shoyu. Digamos assim que eu subia o primeiro grau da escala Bela Gil. Foi bom, me colocou nos eixos e, com uma ou outra dica – que eu vou dar num post sobre enxaqueca que ensaio fazer há meses – melhorei muito. Então veio 2015, e 2015 foi muito lindo, porque com a cabeça sem dor e muita comida na geladeira, até que dá pra ser feliz.

Esse é o momento do mas. É aquele momento em que a mocinha e o mocinho da novela ficam juntos e aparece de repente a ex dele dizendo que está grávida. E a novela, que ainda tem muita caretice, transforma isso num motivo para o casal que todo mundo quer ver junto ficar separado. A vida tem rupturas mais interessantes do que a mocinha grávida, o vilão que chantageia alguém etc.. E a vida tem que ter rupturas. Nem que sejam bem pequenas. Porque se não tem ruptura, não vira história. Então se você, pessoa apaixonada pela estabilidade, praticante daquela mania chata de querer controlar tudo, não está gostando, deixa eu te contar: é preciso aceitar as transformações. Porque sem elas o roteiro da sua vida fica como a última novela do Manoel Carlos [se você não sabe o que aconteceu, busque aqui no blog, mas te adianto que coisa boa não é].

Então vamos lá. Até que dava pra ser feliz, mas na véspera do carnaval desse ano eu comecei a ter uma crise. E fazia muito calor. E o calor é um dos agravantes das enxaquecas. Mas vocês sabem que em fevereiro – em fevereiro – tem carnaval (tem carnaval), eu tenho um fusca e uma viola cantante blablabla whiskas sachê. E eu me vi diante de um grande conflito: querer aproveitar ao menos um pouco os blocos de rua e ter que lidar  om uma cabeça doendo, que não é muito fã de marchinha, multidão e bebida alcóolica.

Foi um momento difícil, irmãos. O superego me empurrou contra a parede e disse, tocando seu cavaquinho: Diz aí Natália, o que ce vai fazer? E quando eu já não sabia mais o que fazer, veio uma voz e sussurrou nos meus ouvidos o que consegui responder: eu vou tirar o glúten pra me defender (ela vai dar uma tapioca no cafézinho dela, ela vai dar o frango com batata doce no almoço dela, ela vai dar uma sopa de legumes no jantar dela, ela vai dar uma resposta pro superego dela). Ah, sim, a voz não era de deus nem do Walmor Chagas, era de um médico que sempre leio e que defende muito a cura da enxaqueca via alimentação.

Eu poderia ficar horas aqui contando detalhes inúteis da minha saga, mas eu prefiro deixar um recado final tipo portal da superação [noveleiros e noveleiras entenderão novamente]: viver sem glúten é muito bom. Mas é também um saco. Viver com glúten é muito bom. Mas é também um saco. [a propósito, falei isso na sessão de análise, a analista pegou a espada e disse “fazer escolhas é assim, Natália” e lá fui eu sair da sessão, mas dessa vez não teve esfiha. ] A grande vantagem desse cenário complexo da retirada ou não do glúten é facilitada pelo meu signo de ar – mudo muito as decisões – pelo meu ascendente em touro – se houver um incêndio, você salva o quê? O pudim que tá na geladeira. Passo temporadas sem glúten. A cabeça fica leve. O corpo também. Durmo melhor. A fome diminui – sem ironias. Se estou numa fase fitness  – mentira, eu nunca estou nessa fase, mas confesso que tenho tentado levar a sério a tal da musculação – , a barriga ganha definição mais rápido. Está tudo bem e eu até chego a me acostumar. Mas daí me acontece um imprevisto. Outro dia, por exemplo uma amiga me ligou e me contou uma história que me deixou apreensiva por ela. Desliguei o telefone, corri pra cozinha. Tinha semente de girassol, tinha pêssego, tinha gelatina, tinha barra de cereal. Também tinha um saco fechado de sequilhos. E só os sequilhos conseguiriam dar conta do meu nervosismo. Por sinal: melhor sequilho da minha vida. Então é isso. A vida pode não ter glúten. Mas isso significa a vida sem pão, pizza, bolo, nhoque, biscoito, casquinha de sorvete, quiche e pastel de feira. Aí vocês vão me dizer: mas hoje em dia existe até farinha de dinossauro. Mas. não. fica. igual. de. jeito. nenhum. E chega um momento em que só uma explosão de glúten salva.Só  uns 4 pedaços de pizza vão apaziguar sua TPM, só um cheeseburguer vai melhorar seu dia estressante, só uma lasanha vai aquecer seu coração, só um pão alemão vai te ajudar a terminar aquele artigo que não acaba nunca. E daí você vai se jogar e entender que nem todo pozinho branco e viciente precisa ser cocaína. Porque a vida ganha mais beleza com a farinha de trigo. Porque é impossível não sorrir depois de comer um croissant bem feito. Porque o bolo de brigadeiro sem glúten é uma heresia e deveria ser proibido por lei.

 

Então é assim que vivo agora, entre um extremo e outro, mandando Manoel Carlos pras cucuias: cada dia novo de dieta é um flash, mas no final da temporada rola uma panqueca. Para todas as pessoas que querem desfilar só com o tapa sexo no carnaval e aparecer no gshow. com existem dietas desumanas. Para todas as outras existe o rodízio do glúten da Madame Naná.

ps 1: ligue agora e receba em casa o cookie sem glúten, também conhecido como o pior cookie do mundo.

 

 

 

Ave, César!

São os irmãos Cohen, o que significa que, se houver filme, vou assistir. É como Woody Allen, Polanski ou, como o queridíssimo e não mais presente, Coutinho. Ou, ainda, como aquele ditado: sexo é que nem pizza, mesmo quando é ruim é bom. Discordo do ditado – sexo e pizza são sempre bons? – mas mantenho minha convicção de ver os filmes destes diretores que, aí sim, mesmo quando são ruins, são bons.

Ave, César! é bom, é hilário, é bem feito. O blog anda enferrujado e ontem, numa discussão no bar sobre a história, decidi fazer um post.

images (1)

Edward Mannix é um empresário responsável por todo o tipo de perrengue do estúdio Capitol Pictures, na Holywood dos anos 50. Enquanto ele corre de um lado pro outro, acompanhando todos os filmes e seriados do estúdio e trabalhando para manter a chama da indústria cultural acesa, recebe proposta de uma outra indústria que, sabendo de seus talentos, lhe oferece salário maior e estabilidade para que ele abandone o mundo do cinema. No meio da sua correria e da indecisão sobre mudar ou não de ramo diante da oferta feita, Mannix tem que resolver grande problema:  antes da gravação das cenas finais do filme Ave, César! o protagonista, o ator Baird Whitlock (que no filme é uma grande estrela e é interpretado pela grande estrela George Clooney), é sequestrado, comprometendo a mega produção.

[a partir daqui, tem spoiler]

Mannix trabalha para que a peteca não caia. E isso significa encobrir a gravidez da estrela interpretada por Scarlett Johanson – cuja imagem para os fãs é de pura e ingênua e não pode ser abalada por uma gravidez sem casamento – , escalar um ator de western (que sabe dar piruetas sobre um cavalo, mas é péssimo atuando) para um filme romântico, já que todos os outros galãs estão afastados porque fazem rehab ou coisas do gênero, negociar com as jornalistas gêmeas que competem, trabalhando em diferentes colunas de fofoca e estão ávidas por escândalos envolvendo atrizes e atores. Seu ramo é o ramo da farsa, da ilusão, da imagem que, para ser mantida intacta, custa negociações com atores, propina para a polícia etc..

O filme Ave, César!  (o filme dentro do filme) conta a história de um romano cético que se converte ao conhecer Jesus. Suas cenas, assim como as das outras produções da Capitol Pictures, reproduzem cenários e músicas da produção estadounidense dos anos 50. Não sem muito sarcasmo. Entre um riso e outro, descobrimos que Baird Whitlock foi sequestrado por um grupo de comunistas. Numa casa à beira mar, eles explicam Marx e assuntos relacionados ao galã de Holywood, que chega a simpatizar com a causa. O diálogo  e as ideias destes comunistas são tão caricatos quanto os cenários de Holywood.  Destaque para o Marcuse, que é patético – um amigo da Filosofia diz que, ao ler a escola de Frankfurt, acha que o Marcuse é aquele primo que nunca foi inteligente, mas que ganha melhor que os outros. Ponto pros irmãos Cohen, não falta bom humor para representá-lo no filme.

Um pouco como em O Grande Lebowski e Queime Depois de Ler, a história se amarra com elementos inusitados – o ator principal do musical sobre marinheiros extremamente clichê é, no fundo, um comunista que se une aos sequestradores de Whitlock para, enfim, ser levado de barco para a União Soviética.

Tudo é motivo de riso, tudo é representado de forma caricata: Holywood, o comunismo, o anti comunismo, a religião (pois o filme fala de Jesus, mas Whitlock, ao voltar enfim para fazer as últimas cenas do filme, esquece justamente da palavra “fé” em sua última fala). E, no entanto, Mannix consegue se decidir. A proposta de emprego que lhe ofereciam era um posto na indústria bélica (pós segunda guerra, durante a guerra fria!). Ao se confessar com o padre antes de fazer a decisão, e ouvir que deve seguir seu coração, Mannix decide pelo emprego que paga menos e deixa-o exaurido: a indústria do cinema. São duas indústrias, mas ele ainda opta por fazer a ilusão acontecer. Criar, com todos os poréns, em vez de destruir. Vi neste final a escolha dos irmãos Cohen: é uma indústria exploradora, ridícula, falsa, que produz ilusões, mas, ainda assim, é nela que ficamos, rindo um pouco de tudo e mantendo a acidez que nos é própria. Ave, César! é mais uma prova disso.

 

 

ps: uma analogia forçadíssima, mas que não posso deixar de fazer. O filme me lembrou algo de A Rosa Púrpura do Cairo e Hannah e Suas irmãs, do Woody Allen. Nada tem explicação, tudo está uma droga, mas o sentido da vida, da existência, é dado pelo cinema.

Há pouco menos de um ano publiquei este texto aqui. O título era “Girls don´ t cry”. Ontem decidi revisitá-lo e reescrevê-lo. Publico-o modificado e cheio de lacunas que ainda não sei como preencher.

Estive uma vez no hospital da Salpêtrière, em Paris, no ano de 2009. Não fui até lá para visitar a instituição presente nos escritos de Foucault. Na verdade, precisava de um médico: tinha passado a noite de inverno com uma terrível dor de ouvido. Fiquei impressionada com o tamanho do complexo hospitalar, vaguei pelos prédios sem achar a unidade em que poderia ser atendida e desisti, levando comigo o mapa que ganhei para me localizar lá dentro. Devo tê-lo numa pasta com lembranças da França. Um dia mostro para algum amigo filósofo, pensei.

Há alguns meses, descobri que Freud esteve também na Salpêtrière, onde assistiu as aulas de Charcot. Se eu soubesse disso na época, teria tirado algumas fotos. Não é qualquer hospital que já foi a sede dos mais famosos espetáculos de hipnose e histeria.

Um ano depois daquela dor, descobri que tinha uma espécie de tumor em um dos meus ouvidos.  Fui operada a tempo de não sofrer nenhuma consequência grave, mas perdi boa parte da audição do lado direito. Vez ou outra me pergunto se a consulta no Salpêtrière teria evitado essa perda. Visitar o futuro do pretérito é um exercício viciante. Já atravessei noites sem dormir colecionando hipóteses. Quando o dia começa a raiar, aparece o inevitável: nunca vou saber.

Meu apartamento em Paris ficava perto de uma rua onde havia o hotel Brasil, cuja placa exibia as seguintes palavras: “aqui morou Sigmund Freud”.

Recentemente pensei em escrever um texto em homenagem à Anna O., a primeira histérica descrita por Freud. Considero seu caso belíssimo e acho que devo também a ela o agradecimento pelo início da psicanálise.

Desde criança sou fascinada por contar histórias. Acontece que tenho certo gosto por novelas que começou quando eu mal sabia trocar de canal. A teledramaturgia trabalha com grandes narrativas, que consistem em colocar uma série de elementos díspares dentro do mesmo roteiro, sem deixar nenhuma ponta solta.

No meu segundo mês de divã, perguntei à analista: sou histérica? Silêncio.

A escrita e a histeria têm lá suas semelhanças: nenhuma delas sobrevive sem saber narrar muito bem. A narrativa é uma espécie de trapaça – menos com os outros e mais com elas próprias. A escrita transforma num relato cinza a vida banal do escritor. A histeria é uma boa fantasia de cores vibrantes que dissimula o vazio das histéricas.

Às vezes é preciso dizer o óbvio: a escrita e as histéricas são muito sedutoras.

Não é difícil escrever um texto tocante. A tarefa consiste em escrever exatamente o que o leitor quer ler. As histéricas e os escritores também partilham desta qualidade: adivinhar rapidamente o desejo do outro.

Amarrar a ida à Salpêtrière, a dor de ouvido, o problema da escuta, o hotel Brasil e a dor de Anna O. em um mesmo texto seria tão fácil quanto prazeroso.

Dois meses após o diagnóstico do tumor, fiz a cirurgia. Passado o efeito da anestesia geral, não havia mais subterfúgios. Com muitos decibéis a menos, minha escuta captava enredos fragmentados que beiravam a falta de sentido.

Uma vez fiz uma paródia. “A histérica é fingidora, finge tão completamente, que finge ser dor, o desejo que deveras sente.” Gostou? Perguntei à analista. Continuamos a semana que vem, ela disse.

Na literatura, há sempre algo a ser dito. É por isso que a literatura está sempre por vir, afirmou o professor em uma aula sobre linguagem literária. Quando tudo já está dito, ainda não há literatura.

Afinal, onde colocar os desejos e as perguntas sem resposta?

Há poucos dias um amigo poeta me perguntou o que era possível dizer numa primeira sessão de análise. O que você quiser, foi a minha resposta. E então completei: tudo que é falável é material da análise. Nesse ponto ela está muito próxima da literatura.

Também tem outra semelhança que me ocorreu agora. É que a psicanálise e a literatura nos ensinam a fazer alguma coisa com aquela dor ensurdecedora das noites frias do passado.

[Sempre falo sobre as mulheres e hoje, em mais um 8 de março, decidi falar sobre mim,sobre as dores passadas, as experiências que vivi e tudo que venho pensando sobre].

Eu quis fazer uma denúncia e desisti. Sim, eu cheguei a escrever um texto enorme. Não poupei os nomes, as datas, cada detalhe de todos os episódios do machismo com o qual fui tratada. Pois é. Eu também não poupei as mulheres que presenciaram meu silenciamento e não fizeram nada a respeito disso. A denúncia não era só do machismo, porque o machismo era só o começo. Eu queria contar de tudo o que me aconteceu depois de eu mencionar essa palavra numa ocasião. Depois de eu ter a ousadia de sair do silêncio e falar em nome de pessoas que eram silenciadas em um espaço. Aí é que as coisas se complicaram. Eu me tornei reacionária, nas palavras de alguns que me ouviram. Eu recebi e-mails ameaçadores. Eu li críticas às minhas companheiras, que não estavam ao meu lado quando decidi enfrentar o machismo. E elas leram críticas dirigidas a mim. A sensação é que, de um jeito covarde, quem nos escrevia queria romper com a nossa união. Meu relato, que era um testemunho do que eu tinha vivido, foi comparado aos textos da revista Veja. Testemunho e difamação foram igualados, acreditem. Como se o relato de uma vivência minha fosse como um texto cheio de frases e fatos forjados de uma revista horrorosa como a Veja. Não foi fácil.

O fato é que desde o fim de 2014 eu tinha uma coisa entalada na garganta e eu gostaria de contá-la pro mundo inteiro. Eu queria ter aquele prazer inenarrável e terrível de apontar o dedo na cara de meia dúzia de pessoas e falar: machista. Eu queria queimar o filme dessas pessoas, como elas tentaram queimar o meu me chamando de reacionária e até mesmo de classista. Não vou negar que eu queria. Mas eu também pensava muito no que foi ser silenciada. Pensava em como foi ruim ler e-mails endereçados a pessoas de quem eu gosto em que uma pessoa que já tinha me oprimido me desqualificava e falava coisas levianas e até falsas sobre mim. Eu também vivenciava o horror que viravam os linchamentos virtuais. Eu sabia que um post meu poderia “colar” de alguma maneira, e que muitas mulheres poderiam compartilhá-lo. Eu sabia que elas não teriam a disposição de me procurar, me ouvir, ouvir o outro lado. Que se eu fizesse um texto bem apelativo, elas simplesmente julgariam os nomes que eu escreveria, xingariam, visitariam seus perfis no facebook para infernizá-los. Sem cuidado, sem cautela, sem possibilidade de perdão. Eu sabia que, se eu caprichasse bem, se eu me articulasse, eu poderia complicar a vida profissional de algumas pessoas. E se eu exibisse prints de e-mails, comentários e conversas no facebook, eu poderia fazê-las sentir a dor de estômago que eu senti ao ler que um espaço do qual fiz parte me hostilizava e mentia sobre mim. E foi por isso mesmo que eu não fiz a tal denúncia, e apaguei um post no qual eu fazia uma leve sugestão do que eu gostaria de ter falado.

O machismo, amigas e amigos, não está concentrado em uma pessoa. Atualmente gostamos de nomear este ou aquele homem, como se o machismo fosse um espírito e pudéssemos exorcizá-lo do corpo que ele tomou. É mais complicado do que isso. Há milhares de mulheres anônimas sofrendo muito mais, muito mais do que eu. Elas apanham em casa, são mal pagas, são abusadas, passam horas no transporte público para voltar do trabalho.O feminismo negro e seus muitos textos me ensinaram muito sobre a hierarquia que existe dentro do feminismo, sobre os privilégios que, mulher branca de classe média, tenho. Os agressores dessas mulheres que não sei o nome também permanecem anônimos e impunes. E eu aqui, longe, protegida, sem saber do sofrimento delas. Eu tenho quase 30 anos e minha vontade de receber confete tem passado. Não vou transformar um sofrimento – que foi, sim, muito real – num espetáculo. Não vou dar os nomes de quem me tratou mal e me silenciou. Porque eles fizeram isso comigo e eu vivi dias infernais. Porque ser hostilizada por várias pessoas é terrível e eu não quero que essas pessoas sejam hostilizadas por novos justiceiros da internet. Eu prefiro falar deste espaço que poderia ter sido qualquer um, porque desconheço espaços coletivos no Brasil que sejam isentos de machismo. Eu vou falar da necessidade que a gente tem de sempre colocar os espaços que ocupa em questão. Porque a gente reproduz violências sem perceber. Eu vou falar sobre o ato belíssimo que pode ser colocar em dúvida as próprias convicções, desconfiar do próprio discurso. Não é porque nos declaramos humanos, justos, solidários, que não cometemos violência. E se querem saber, eu não gostaria que esse espaço que ocupei fosse destruído publicamente. Eu gostaria que ele fosse repensado, que ele portasse a possibilidade de auto crítica. Todo espaço que se diz minimamente preocupado com as questões de gênero deveria começar dando voz às mulheres, aos gays, às trans que dele fazem parte e pensando se não há, nas suas práticas mais banais, uma carga de machismo. Para as pessoas que me conhecem, com quem tenho afinidade e em quem confio, posso relatar melhor esse machismo que vivi – mas não num post público. Mas há pouco tempo eu cheguei a conclusão de que meu feminismo não inclui linchamentos virtuais ou reais – embora inclua alguns escrachos (que, para mim, são muito diferentes de linchamentos) em casos específicos, mas certamente não neste meu caso. Por isso, nesse texto público, eu abro mão de nomear e relatar detalhes do que vivi – que não foi diferente de muitos relatos que li durante o ano passado. Porque eu acho que não estamos vivendo uma atmosfera em que esses relatos são devidamente acolhidos. E tenho medo do caráter fascista que pode ganhar a reação a certos machismos. Não digo com isso que o machismo é melhor que o feminismo, de forma alguma. Mas digo que nós, da esquerda, estamos reproduzindo práticas horríveis. Uma parte do machismo que vivi tem a ver com isso. Eu estou em busca de outras possibilidades, que não incluem o estrelismo, a reação sem medida e sem cuidado, a punição como único ato político possível. Eu não quero um feminismo seja, ou torne-se instrumento, de processos que visam destruir com a vida de pessoas. Antes de terminar, quero dizer que muitas denúncias que leio são importantes e corajosas. Não discordo de tudo o que leio e acho preciosa a contribuição dessas mulheres que saem do silêncio. Só acho que nos acostumamos a ouvir esses relatos mais como uma arma para linchar o opressor do que como uma forma de acolher a oprimida. Eu não quero dar munição para ações violentas da internet.

Para as muitas mulheres que vejo criando a coragem enorme de relatar o que sofreram, e para as amigas que me apoiaram e me ajudaram quando passei pelo que passei, e para as desconhecidas que vejo lutando contra o machismo, para as muitas guerreiras que estarão amanhã na Paulista, no ato em que não poderei ir, e, sobretudo, para as mulheres que passaram por essas violências comigo e me ajudaram, mostrando que não estávamos loucas, e que sim, tínhamos sido muito maltratadas, eu dou o meu mais sincero obrigada. Estamos juntas. Espero que a gente siga reinventando nosso feminismo toda vez que isso for preciso.

Boi Neon

Cacá vive no meio do sertão com sua mãe, Galega, e alguns boiadeiros que trabalham com ela  viajando de cidade em cidade, onde acontecem as vaquejadas e feiras de cavalo. Abandonada pelo pai, de quem sente falta, a menina habita um ambiente árido, pobre, da terra seca que parece não abrir brecha para possibilidade de mudança. Como os bois, enclausurados na cerca de madeira, cujo sofrimento faz parte do espetáculo de cada rodeio realizado. Difícil ser brasileira e não conhecer essa cena, da pobreza e do sertão, cheia de miséria a ser explorada. Boi Neon, no entanto, parece escolher outro olhar para este cenário: o do sonho.

images

Quando acompanha os adultos nas vaquejadas, Cacá corre para ver os cavalos. Fascinada pelos animais, sonha ter um deles um dia. A mãe reclama: “essa menina só sonha com o que não pode ter”. Iremar, um dos boiadeiros e protagonista do filme, responde algo como: “qual o problema?”. Essa cena pode ser uma chave para ler o filme. Pois o enredo fala desses sonhos improváveis.

Assim é possível ler Iremar (Juliano Cazarré), cujo trabalho bruto de cuidar dos bois coexiste com a qualidade de costureiro e o desejo de ser estilista, expresso no seu interesse pelas fábricas de tecido, lojas de roupas etc.. As revistas de mulheres nuas não lhe servem como fonte de excitação sexual. Elas fornecem figuras que ele cobre com os modelitos que desenha, pintado aqueles corpos com traços de caneta. Também há Galega ( Maeve Jinkings). Seus traços finos contrastam com sua profissão – caminhoneira – e com seu jeito rude e grosseiro de falar com as pessoas.

As combinações pouco prováveis aumentam no meio da história. Primeiro há o novo vaqueiro, Júnior: de aparelho fixo nos dentes, colocado apenas por motivos estéticos, e cabelos longos de chapinha, a personagem parece como um belo cavalo – que, como diz o ditado, se dado, não deve ter os dentes olhados. E é pra eles, e para seu sorriso brilhante, que Cacá olha, fica intrigada, enchendo o moço de perguntas. Durante o filme, ainda presa a estereótipos (que são sempre reconfortantes), imaginei um romance entre Júnior e Iremar, pensando na possível homossexualidade do vaqueiro estilista, que prefere mulheres vestidas do que nuas. Mais um engano, mais uma situação improvável: é com Galega que fica o novo vaqueiro dos cabelos pretos e lisos. É ela que segura sua cabeça pedindo que ele continue fazendo o sexo oral – “quase como homem faz”, pensei, retomando o pensamento inevitável dos estereótipos insiste em retornar.

Há também Geisy, a grávida que vende perfumes e cremes de dia e é segurança de uma fábrica de tecidos à noite. Interessada em Iremar, convida-o para entrar na fábrica. E balança de vez nossos rótulos: vestida de vigia noturna e armada, se despe e transa com Iremar sentando por cima do vaqueiro e explicitando que grávidas com uma barriga enorme podem, sim, sentir desejo.

Há uma série de outras cenas das quais eu poderia lembrar. Cenas que desafiam os clichês que trazemos conosco e belíssimas relações entre os corpos dos bois, cavalos e humanos. O corpo: lugar das contradições, da convivência difícil da brutalidade e da delicadeza. O corpo dos homens, às vezes vivendo como animais. E o corpo, por exemplo, da égua, que desfila como uma modelo, com seus cabelos cintilantes e seu porte tão nobre. Todos lá, parecidos, como mostra a cena dos vaqueiros pelados dividindo um grande box para tomar banho. E todos tão singulares, donos de desejos que não cabem nas nossas expectativas batidas do que seriam o homem e a mulher no sertão nordestino. Existe, aliás, o homem? A mulher? Ou será que não deveríamos usar sempre o artigo indefinido. Um homem, como Iremar. Uma mulher, como Galega. Únicos, como é única a égua da linda cena em que é posta para dormir por um vaqueiro, numa cena quase que romântica.

Bia Macruz, a amiga com quem assisti esse filme, reparou na beleza da última cena: Iremar sai do espaço cercado onde estão os bois. Um final aberto, com essa janela para o desconhecido, já que o filme para por aí. Meu pai e minha madrasta, a quem recomendei Boi Neon, não gostaram. Acharam que há clichês às avessas em excesso. De fato, há mesmo, e eu só pensei nisso quando eles me disseram. Mas isso não mudou o que achei do filme, que me tocou tanto. Termino aqui tentando juntar a crítica de quem não gostou com meu fascínio diante de uma história que achei tão bonita: vivida fora do cinema, numa viagem que eu fizesse ao nordeste, a história poderia parecer forçada. Mas contada como foi, ela não me pareceu um excesso. O filme é, para mim, a resposta à afirmação de Galega ao ver sua filha desejar cavalos: há lugares em que sonhamos com o que dificilmente teremos. E um deles, para mim, continua sendo a tela do cinema.

Para viver essa difícil transição do sonho à vigília, essa música linda que faz parte da trilha sonora: https://www.youtube.com/watch?v=rV6LXhA3-Jc.