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No ano retrasado, acho que no dia 23 de dezembro, li uma entrevista com nutricionista da USP que achei genial. Ela condenava essas dietas insanas que entram na moda, como aquela em que a pessoa fica só comendo proteína. Isso, só comendo proteína – não sei em você que está lendo, mas aqui dentro de mim eu sinto um vazio no estômago e vislumbro um dos círculos do inferno em que garçons sarados me oferecem barrinhas de Whey. Bom, pois é, essa nutricionista falava de dietas de gente como a gente, que não vivem só para malhar o corpo, e que são muito mais tranquilas. Achei que a entrevista merecia ser compartilhada e postei no facebook, incluindo a frase “melhor viver sem culpa do que viver sem glúten”.

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Melhor viver sem culpa do que sem glúten. Meu mantra, aquele tipo de frase que é como a presença de deus pros infiéis – você pode não acreditar, mas existe, está em você, existia antes de você. Passei a repeti-lo entre uma refeição e outra, nos três lanches da tarde que faço quando trabalho em casa, no sorvete que eu me permitia tomar nesses dias de calor tórrido em São Paulo, na pipoca doce caseira que virou meu vício em 2015. Ainda sigo deitando semanalmente no divã, trazendo à tona as mesmas questões, entediando a mim e a minha analista, a culpa sempre volta. Às vezes, num momento de distração, uma frase pouco usual me escapa, a analista já está preparada com seu chicote. Dá-me uma bela chicotada, depois me manda embora. Eu saio com lágrimas nos olhos, o chão parece tremer, minhas certezas vão ruindo. Ando duas quadras e dou de cara com um árabe sensacional, uma das melhores esfihas de São Paulo. Contra toda a angústia e preenchendo o vazio existencial: algumas esfihas. E o mundo volta a ser um lugar habitável. Melhor viver com culpa, mas também com glúten.

Acontece que eu sofro de enxaquecas. Há épocas em que elas somem, há épocas em que elas me dominam. E houve um ano – 2014 – em que eu, homenageando um dos títulos de Kafka (será que Kafka comia glúten? Pausa para outra visão de um círculo do inferno: insetos, ambiente sombrio, uma repartição pública, um processo com o meu nome, muito sofrimento, ausência de respostas. Vou ao corredor da repartição, não há uma máquina de café, um pote de balas, nada) eu me metamorfoseei numa enxaqueca. Eu a enxaqueca nos tornamos a mesma. E não havia pote de sorvete que me tirasse daquela crise. Fato é que o ano foi produtivo na análise, minha analista comprou até um conjunto de correntes para aprimorar as sessões,  e uma espada Hatori Hanzo para me dar cortes precisos, mas só a elaboração ali, no divã, olhando para a parede, não foi suficiente. Depois de dez anos da minha primeira crise, aceitei o que era repetido até em sabedoria de televisão do metrô: a alimentação tem tudo a ver com as suas dores.

Vamos colocar no repeat porque foi difícil aceitar: a alimentação tem tudo a ver com as suas dores. A alimentação tem tudo a ver com as suas dores, a alimentação tem tudo a ver com as suas dores, a alimentação tem tudo a ver com as suas dores, a alimentação tem tudo a ver com as suas dores. Ok.

Aceitar essa verdade, que tal como deus, já estava lá, embora eu a rejeitasse, me rendeu muita coisa boa. Parei o vinho tinto, diminuí o álcool em geral, diminuí muito o chocolate, cortei o shoyu. Digamos assim que eu subia o primeiro grau da escala Bela Gil. Foi bom, me colocou nos eixos e, com uma ou outra dica – que eu vou dar num post sobre enxaqueca que ensaio fazer há meses – melhorei muito. Então veio 2015, e 2015 foi muito lindo, porque com a cabeça sem dor e muita comida na geladeira, até que dá pra ser feliz.

Esse é o momento do mas. É aquele momento em que a mocinha e o mocinho da novela ficam juntos e aparece de repente a ex dele dizendo que está grávida. E a novela, que ainda tem muita caretice, transforma isso num motivo para o casal que todo mundo quer ver junto ficar separado. A vida tem rupturas mais interessantes do que a mocinha grávida, o vilão que chantageia alguém etc.. E a vida tem que ter rupturas. Nem que sejam bem pequenas. Porque se não tem ruptura, não vira história. Então se você, pessoa apaixonada pela estabilidade, praticante daquela mania chata de querer controlar tudo, não está gostando, deixa eu te contar: é preciso aceitar as transformações. Porque sem elas o roteiro da sua vida fica como a última novela do Manoel Carlos [se você não sabe o que aconteceu, busque aqui no blog, mas te adianto que coisa boa não é].

Então vamos lá. Até que dava pra ser feliz, mas na véspera do carnaval desse ano eu comecei a ter uma crise. E fazia muito calor. E o calor é um dos agravantes das enxaquecas. Mas vocês sabem que em fevereiro – em fevereiro – tem carnaval (tem carnaval), eu tenho um fusca e uma viola cantante blablabla whiskas sachê. E eu me vi diante de um grande conflito: querer aproveitar ao menos um pouco os blocos de rua e ter que lidar  om uma cabeça doendo, que não é muito fã de marchinha, multidão e bebida alcóolica.

Foi um momento difícil, irmãos. O superego me empurrou contra a parede e disse, tocando seu cavaquinho: Diz aí Natália, o que ce vai fazer? E quando eu já não sabia mais o que fazer, veio uma voz e sussurrou nos meus ouvidos o que consegui responder: eu vou tirar o glúten pra me defender (ela vai dar uma tapioca no cafézinho dela, ela vai dar o frango com batata doce no almoço dela, ela vai dar uma sopa de legumes no jantar dela, ela vai dar uma resposta pro superego dela). Ah, sim, a voz não era de deus nem do Walmor Chagas, era de um médico que sempre leio e que defende muito a cura da enxaqueca via alimentação.

Eu poderia ficar horas aqui contando detalhes inúteis da minha saga, mas eu prefiro deixar um recado final tipo portal da superação [noveleiros e noveleiras entenderão novamente]: viver sem glúten é muito bom. Mas é também um saco. Viver com glúten é muito bom. Mas é também um saco. [a propósito, falei isso na sessão de análise, a analista pegou a espada e disse “fazer escolhas é assim, Natália” e lá fui eu sair da sessão, mas dessa vez não teve esfiha. ] A grande vantagem desse cenário complexo da retirada ou não do glúten é facilitada pelo meu signo de ar – mudo muito as decisões – pelo meu ascendente em touro – se houver um incêndio, você salva o quê? O pudim que tá na geladeira. Passo temporadas sem glúten. A cabeça fica leve. O corpo também. Durmo melhor. A fome diminui – sem ironias. Se estou numa fase fitness  – mentira, eu nunca estou nessa fase, mas confesso que tenho tentado levar a sério a tal da musculação – , a barriga ganha definição mais rápido. Está tudo bem e eu até chego a me acostumar. Mas daí me acontece um imprevisto. Outro dia, por exemplo uma amiga me ligou e me contou uma história que me deixou apreensiva por ela. Desliguei o telefone, corri pra cozinha. Tinha semente de girassol, tinha pêssego, tinha gelatina, tinha barra de cereal. Também tinha um saco fechado de sequilhos. E só os sequilhos conseguiriam dar conta do meu nervosismo. Por sinal: melhor sequilho da minha vida. Então é isso. A vida pode não ter glúten. Mas isso significa a vida sem pão, pizza, bolo, nhoque, biscoito, casquinha de sorvete, quiche e pastel de feira. Aí vocês vão me dizer: mas hoje em dia existe até farinha de dinossauro. Mas. não. fica. igual. de. jeito. nenhum. E chega um momento em que só uma explosão de glúten salva.Só  uns 4 pedaços de pizza vão apaziguar sua TPM, só um cheeseburguer vai melhorar seu dia estressante, só uma lasanha vai aquecer seu coração, só um pão alemão vai te ajudar a terminar aquele artigo que não acaba nunca. E daí você vai se jogar e entender que nem todo pozinho branco e viciente precisa ser cocaína. Porque a vida ganha mais beleza com a farinha de trigo. Porque é impossível não sorrir depois de comer um croissant bem feito. Porque o bolo de brigadeiro sem glúten é uma heresia e deveria ser proibido por lei.

 

Então é assim que vivo agora, entre um extremo e outro, mandando Manoel Carlos pras cucuias: cada dia novo de dieta é um flash, mas no final da temporada rola uma panqueca. Para todas as pessoas que querem desfilar só com o tapa sexo no carnaval e aparecer no gshow. com existem dietas desumanas. Para todas as outras existe o rodízio do glúten da Madame Naná.

ps 1: ligue agora e receba em casa o cookie sem glúten, também conhecido como o pior cookie do mundo.

 

 

 

Ave, César!

São os irmãos Cohen, o que significa que, se houver filme, vou assistir. É como Woody Allen, Polanski ou, como o queridíssimo e não mais presente, Coutinho. Ou, ainda, como aquele ditado: sexo é que nem pizza, mesmo quando é ruim é bom. Discordo do ditado – sexo e pizza são sempre bons? – mas mantenho minha convicção de ver os filmes destes diretores que, aí sim, mesmo quando são ruins, são bons.

Ave, César! é bom, é hilário, é bem feito. O blog anda enferrujado e ontem, numa discussão no bar sobre a história, decidi fazer um post.

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Edward Mannix é um empresário responsável por todo o tipo de perrengue do estúdio Capitol Pictures, na Holywood dos anos 50. Enquanto ele corre de um lado pro outro, acompanhando todos os filmes e seriados do estúdio e trabalhando para manter a chama da indústria cultural acesa, recebe proposta de uma outra indústria que, sabendo de seus talentos, lhe oferece salário maior e estabilidade para que ele abandone o mundo do cinema. No meio da sua correria e da indecisão sobre mudar ou não de ramo diante da oferta feita, Mannix tem que resolver grande problema:  antes da gravação das cenas finais do filme Ave, César! o protagonista, o ator Baird Whitlock (que no filme é uma grande estrela e é interpretado pela grande estrela George Clooney), é sequestrado, comprometendo a mega produção.

[a partir daqui, tem spoiler]

Mannix trabalha para que a peteca não caia. E isso significa encobrir a gravidez da estrela interpretada por Scarlett Johanson – cuja imagem para os fãs é de pura e ingênua e não pode ser abalada por uma gravidez sem casamento – , escalar um ator de western (que sabe dar piruetas sobre um cavalo, mas é péssimo atuando) para um filme romântico, já que todos os outros galãs estão afastados porque fazem rehab ou coisas do gênero, negociar com as jornalistas gêmeas que competem, trabalhando em diferentes colunas de fofoca e estão ávidas por escândalos envolvendo atrizes e atores. Seu ramo é o ramo da farsa, da ilusão, da imagem que, para ser mantida intacta, custa negociações com atores, propina para a polícia etc..

O filme Ave, César!  (o filme dentro do filme) conta a história de um romano cético que se converte ao conhecer Jesus. Suas cenas, assim como as das outras produções da Capitol Pictures, reproduzem cenários e músicas da produção estadounidense dos anos 50. Não sem muito sarcasmo. Entre um riso e outro, descobrimos que Baird Whitlock foi sequestrado por um grupo de comunistas. Numa casa à beira mar, eles explicam Marx e assuntos relacionados ao galã de Holywood, que chega a simpatizar com a causa. O diálogo  e as ideias destes comunistas são tão caricatos quanto os cenários de Holywood.  Destaque para o Marcuse, que é patético – um amigo da Filosofia diz que, ao ler a escola de Frankfurt, acha que o Marcuse é aquele primo que nunca foi inteligente, mas que ganha melhor que os outros. Ponto pros irmãos Cohen, não falta bom humor para representá-lo no filme.

Um pouco como em O Grande Lebowski e Queime Depois de Ler, a história se amarra com elementos inusitados – o ator principal do musical sobre marinheiros extremamente clichê é, no fundo, um comunista que se une aos sequestradores de Whitlock para, enfim, ser levado de barco para a União Soviética.

Tudo é motivo de riso, tudo é representado de forma caricata: Holywood, o comunismo, o anti comunismo, a religião (pois o filme fala de Jesus, mas Whitlock, ao voltar enfim para fazer as últimas cenas do filme, esquece justamente da palavra “fé” em sua última fala). E, no entanto, Mannix consegue se decidir. A proposta de emprego que lhe ofereciam era um posto na indústria bélica (pós segunda guerra, durante a guerra fria!). Ao se confessar com o padre antes de fazer a decisão, e ouvir que deve seguir seu coração, Mannix decide pelo emprego que paga menos e deixa-o exaurido: a indústria do cinema. São duas indústrias, mas ele ainda opta por fazer a ilusão acontecer. Criar, com todos os poréns, em vez de destruir. Vi neste final a escolha dos irmãos Cohen: é uma indústria exploradora, ridícula, falsa, que produz ilusões, mas, ainda assim, é nela que ficamos, rindo um pouco de tudo e mantendo a acidez que nos é própria. Ave, César! é mais uma prova disso.

 

 

ps: uma analogia forçadíssima, mas que não posso deixar de fazer. O filme me lembrou algo de A Rosa Púrpura do Cairo e Hannah e Suas irmãs, do Woody Allen. Nada tem explicação, tudo está uma droga, mas o sentido da vida, da existência, é dado pelo cinema.

Há pouco menos de um ano publiquei este texto aqui. O título era “Girls don´ t cry”. Ontem decidi revisitá-lo e reescrevê-lo. Publico-o modificado e cheio de lacunas que ainda não sei como preencher.

Estive uma vez no hospital da Salpêtrière, em Paris, no ano de 2009. Não fui até lá para visitar a instituição presente nos escritos de Foucault. Na verdade, precisava de um médico: tinha passado a noite de inverno com uma terrível dor de ouvido. Fiquei impressionada com o tamanho do complexo hospitalar, vaguei pelos prédios sem achar a unidade em que poderia ser atendida e desisti, levando comigo o mapa que ganhei para me localizar lá dentro. Devo tê-lo numa pasta com lembranças da França. Um dia mostro para algum amigo filósofo, pensei.

Há alguns meses, descobri que Freud esteve também na Salpêtrière, onde assistiu as aulas de Charcot. Se eu soubesse disso na época, teria tirado algumas fotos. Não é qualquer hospital que já foi a sede dos mais famosos espetáculos de hipnose e histeria.

Um ano depois daquela dor, descobri que tinha uma espécie de tumor em um dos meus ouvidos.  Fui operada a tempo de não sofrer nenhuma consequência grave, mas perdi boa parte da audição do lado direito. Vez ou outra me pergunto se a consulta no Salpêtrière teria evitado essa perda. Visitar o futuro do pretérito é um exercício viciante. Já atravessei noites sem dormir colecionando hipóteses. Quando o dia começa a raiar, aparece o inevitável: nunca vou saber.

Meu apartamento em Paris ficava perto de uma rua onde havia o hotel Brasil, cuja placa exibia as seguintes palavras: “aqui morou Sigmund Freud”.

Recentemente pensei em escrever um texto em homenagem à Anna O., a primeira histérica descrita por Freud. Considero seu caso belíssimo e acho que devo também a ela o agradecimento pelo início da psicanálise.

Desde criança sou fascinada por contar histórias. Acontece que tenho certo gosto por novelas que começou quando eu mal sabia trocar de canal. A teledramaturgia trabalha com grandes narrativas, que consistem em colocar uma série de elementos díspares dentro do mesmo roteiro, sem deixar nenhuma ponta solta.

No meu segundo mês de divã, perguntei à analista: sou histérica? Silêncio.

A escrita e a histeria têm lá suas semelhanças: nenhuma delas sobrevive sem saber narrar muito bem. A narrativa é uma espécie de trapaça – menos com os outros e mais com elas próprias. A escrita transforma num relato cinza a vida banal do escritor. A histeria é uma boa fantasia de cores vibrantes que dissimula o vazio das histéricas.

Às vezes é preciso dizer o óbvio: a escrita e as histéricas são muito sedutoras.

Não é difícil escrever um texto tocante. A tarefa consiste em escrever exatamente o que o leitor quer ler. As histéricas e os escritores também partilham desta qualidade: adivinhar rapidamente o desejo do outro.

Amarrar a ida à Salpêtrière, a dor de ouvido, o problema da escuta, o hotel Brasil e a dor de Anna O. em um mesmo texto seria tão fácil quanto prazeroso.

Dois meses após o diagnóstico do tumor, fiz a cirurgia. Passado o efeito da anestesia geral, não havia mais subterfúgios. Com muitos decibéis a menos, minha escuta captava enredos fragmentados que beiravam a falta de sentido.

Uma vez fiz uma paródia. “A histérica é fingidora, finge tão completamente, que finge ser dor, o desejo que deveras sente.” Gostou? Perguntei à analista. Continuamos a semana que vem, ela disse.

Na literatura, há sempre algo a ser dito. É por isso que a literatura está sempre por vir, afirmou o professor em uma aula sobre linguagem literária. Quando tudo já está dito, ainda não há literatura.

Afinal, onde colocar os desejos e as perguntas sem resposta?

Há poucos dias um amigo poeta me perguntou o que era possível dizer numa primeira sessão de análise. O que você quiser, foi a minha resposta. E então completei: tudo que é falável é material da análise. Nesse ponto ela está muito próxima da literatura.

Também tem outra semelhança que me ocorreu agora. É que a psicanálise e a literatura nos ensinam a fazer alguma coisa com aquela dor ensurdecedora das noites frias do passado.

[Sempre falo sobre as mulheres e hoje, em mais um 8 de março, decidi falar sobre mim,sobre as dores passadas, as experiências que vivi e tudo que venho pensando sobre].

Eu quis fazer uma denúncia e desisti. Sim, eu cheguei a escrever um texto enorme. Não poupei os nomes, as datas, cada detalhe de todos os episódios do machismo com o qual fui tratada. Pois é. Eu também não poupei as mulheres que presenciaram meu silenciamento e não fizeram nada a respeito disso. A denúncia não era só do machismo, porque o machismo era só o começo. Eu queria contar de tudo o que me aconteceu depois de eu mencionar essa palavra numa ocasião. Depois de eu ter a ousadia de sair do silêncio e falar em nome de pessoas que eram silenciadas em um espaço. Aí é que as coisas se complicaram. Eu me tornei reacionária, nas palavras de alguns que me ouviram. Eu recebi e-mails ameaçadores. Eu li críticas às minhas companheiras, que não estavam ao meu lado quando decidi enfrentar o machismo. E elas leram críticas dirigidas a mim. A sensação é que, de um jeito covarde, quem nos escrevia queria romper com a nossa união. Meu relato, que era um testemunho do que eu tinha vivido, foi comparado aos textos da revista Veja. Testemunho e difamação foram igualados, acreditem. Como se o relato de uma vivência minha fosse como um texto cheio de frases e fatos forjados de uma revista horrorosa como a Veja. Não foi fácil.

O fato é que desde o fim de 2014 eu tinha uma coisa entalada na garganta e eu gostaria de contá-la pro mundo inteiro. Eu queria ter aquele prazer inenarrável e terrível de apontar o dedo na cara de meia dúzia de pessoas e falar: machista. Eu queria queimar o filme dessas pessoas, como elas tentaram queimar o meu me chamando de reacionária e até mesmo de classista. Não vou negar que eu queria. Mas eu também pensava muito no que foi ser silenciada. Pensava em como foi ruim ler e-mails endereçados a pessoas de quem eu gosto em que uma pessoa que já tinha me oprimido me desqualificava e falava coisas levianas e até falsas sobre mim. Eu também vivenciava o horror que viravam os linchamentos virtuais. Eu sabia que um post meu poderia “colar” de alguma maneira, e que muitas mulheres poderiam compartilhá-lo. Eu sabia que elas não teriam a disposição de me procurar, me ouvir, ouvir o outro lado. Que se eu fizesse um texto bem apelativo, elas simplesmente julgariam os nomes que eu escreveria, xingariam, visitariam seus perfis no facebook para infernizá-los. Sem cuidado, sem cautela, sem possibilidade de perdão. Eu sabia que, se eu caprichasse bem, se eu me articulasse, eu poderia complicar a vida profissional de algumas pessoas. E se eu exibisse prints de e-mails, comentários e conversas no facebook, eu poderia fazê-las sentir a dor de estômago que eu senti ao ler que um espaço do qual fiz parte me hostilizava e mentia sobre mim. E foi por isso mesmo que eu não fiz a tal denúncia, e apaguei um post no qual eu fazia uma leve sugestão do que eu gostaria de ter falado.

O machismo, amigas e amigos, não está concentrado em uma pessoa. Atualmente gostamos de nomear este ou aquele homem, como se o machismo fosse um espírito e pudéssemos exorcizá-lo do corpo que ele tomou. É mais complicado do que isso. Há milhares de mulheres anônimas sofrendo muito mais, muito mais do que eu. Elas apanham em casa, são mal pagas, são abusadas, passam horas no transporte público para voltar do trabalho.O feminismo negro e seus muitos textos me ensinaram muito sobre a hierarquia que existe dentro do feminismo, sobre os privilégios que, mulher branca de classe média, tenho. Os agressores dessas mulheres que não sei o nome também permanecem anônimos e impunes. E eu aqui, longe, protegida, sem saber do sofrimento delas. Eu tenho quase 30 anos e minha vontade de receber confete tem passado. Não vou transformar um sofrimento – que foi, sim, muito real – num espetáculo. Não vou dar os nomes de quem me tratou mal e me silenciou. Porque eles fizeram isso comigo e eu vivi dias infernais. Porque ser hostilizada por várias pessoas é terrível e eu não quero que essas pessoas sejam hostilizadas por novos justiceiros da internet. Eu prefiro falar deste espaço que poderia ter sido qualquer um, porque desconheço espaços coletivos no Brasil que sejam isentos de machismo. Eu vou falar da necessidade que a gente tem de sempre colocar os espaços que ocupa em questão. Porque a gente reproduz violências sem perceber. Eu vou falar sobre o ato belíssimo que pode ser colocar em dúvida as próprias convicções, desconfiar do próprio discurso. Não é porque nos declaramos humanos, justos, solidários, que não cometemos violência. E se querem saber, eu não gostaria que esse espaço que ocupei fosse destruído publicamente. Eu gostaria que ele fosse repensado, que ele portasse a possibilidade de auto crítica. Todo espaço que se diz minimamente preocupado com as questões de gênero deveria começar dando voz às mulheres, aos gays, às trans que dele fazem parte e pensando se não há, nas suas práticas mais banais, uma carga de machismo. Para as pessoas que me conhecem, com quem tenho afinidade e em quem confio, posso relatar melhor esse machismo que vivi – mas não num post público. Mas há pouco tempo eu cheguei a conclusão de que meu feminismo não inclui linchamentos virtuais ou reais – embora inclua alguns escrachos (que, para mim, são muito diferentes de linchamentos) em casos específicos, mas certamente não neste meu caso. Por isso, nesse texto público, eu abro mão de nomear e relatar detalhes do que vivi – que não foi diferente de muitos relatos que li durante o ano passado. Porque eu acho que não estamos vivendo uma atmosfera em que esses relatos são devidamente acolhidos. E tenho medo do caráter fascista que pode ganhar a reação a certos machismos. Não digo com isso que o machismo é melhor que o feminismo, de forma alguma. Mas digo que nós, da esquerda, estamos reproduzindo práticas horríveis. Uma parte do machismo que vivi tem a ver com isso. Eu estou em busca de outras possibilidades, que não incluem o estrelismo, a reação sem medida e sem cuidado, a punição como único ato político possível. Eu não quero um feminismo seja, ou torne-se instrumento, de processos que visam destruir com a vida de pessoas. Antes de terminar, quero dizer que muitas denúncias que leio são importantes e corajosas. Não discordo de tudo o que leio e acho preciosa a contribuição dessas mulheres que saem do silêncio. Só acho que nos acostumamos a ouvir esses relatos mais como uma arma para linchar o opressor do que como uma forma de acolher a oprimida. Eu não quero dar munição para ações violentas da internet.

Para as muitas mulheres que vejo criando a coragem enorme de relatar o que sofreram, e para as amigas que me apoiaram e me ajudaram quando passei pelo que passei, e para as desconhecidas que vejo lutando contra o machismo, para as muitas guerreiras que estarão amanhã na Paulista, no ato em que não poderei ir, e, sobretudo, para as mulheres que passaram por essas violências comigo e me ajudaram, mostrando que não estávamos loucas, e que sim, tínhamos sido muito maltratadas, eu dou o meu mais sincero obrigada. Estamos juntas. Espero que a gente siga reinventando nosso feminismo toda vez que isso for preciso.

Boi Neon

Cacá vive no meio do sertão com sua mãe, Galega, e alguns boiadeiros que trabalham com ela  viajando de cidade em cidade, onde acontecem as vaquejadas e feiras de cavalo. Abandonada pelo pai, de quem sente falta, a menina habita um ambiente árido, pobre, da terra seca que parece não abrir brecha para possibilidade de mudança. Como os bois, enclausurados na cerca de madeira, cujo sofrimento faz parte do espetáculo de cada rodeio realizado. Difícil ser brasileira e não conhecer essa cena, da pobreza e do sertão, cheia de miséria a ser explorada. Boi Neon, no entanto, parece escolher outro olhar para este cenário: o do sonho.

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Quando acompanha os adultos nas vaquejadas, Cacá corre para ver os cavalos. Fascinada pelos animais, sonha ter um deles um dia. A mãe reclama: “essa menina só sonha com o que não pode ter”. Iremar, um dos boiadeiros e protagonista do filme, responde algo como: “qual o problema?”. Essa cena pode ser uma chave para ler o filme. Pois o enredo fala desses sonhos improváveis.

Assim é possível ler Iremar (Juliano Cazarré), cujo trabalho bruto de cuidar dos bois coexiste com a qualidade de costureiro e o desejo de ser estilista, expresso no seu interesse pelas fábricas de tecido, lojas de roupas etc.. As revistas de mulheres nuas não lhe servem como fonte de excitação sexual. Elas fornecem figuras que ele cobre com os modelitos que desenha, pintado aqueles corpos com traços de caneta. Também há Galega ( Maeve Jinkings). Seus traços finos contrastam com sua profissão – caminhoneira – e com seu jeito rude e grosseiro de falar com as pessoas.

As combinações pouco prováveis aumentam no meio da história. Primeiro há o novo vaqueiro, Júnior: de aparelho fixo nos dentes, colocado apenas por motivos estéticos, e cabelos longos de chapinha, a personagem parece como um belo cavalo – que, como diz o ditado, se dado, não deve ter os dentes olhados. E é pra eles, e para seu sorriso brilhante, que Cacá olha, fica intrigada, enchendo o moço de perguntas. Durante o filme, ainda presa a estereótipos (que são sempre reconfortantes), imaginei um romance entre Júnior e Iremar, pensando na possível homossexualidade do vaqueiro estilista, que prefere mulheres vestidas do que nuas. Mais um engano, mais uma situação improvável: é com Galega que fica o novo vaqueiro dos cabelos pretos e lisos. É ela que segura sua cabeça pedindo que ele continue fazendo o sexo oral – “quase como homem faz”, pensei, retomando o pensamento inevitável dos estereótipos insiste em retornar.

Há também Geisy, a grávida que vende perfumes e cremes de dia e é segurança de uma fábrica de tecidos à noite. Interessada em Iremar, convida-o para entrar na fábrica. E balança de vez nossos rótulos: vestida de vigia noturna e armada, se despe e transa com Iremar sentando por cima do vaqueiro e explicitando que grávidas com uma barriga enorme podem, sim, sentir desejo.

Há uma série de outras cenas das quais eu poderia lembrar. Cenas que desafiam os clichês que trazemos conosco e belíssimas relações entre os corpos dos bois, cavalos e humanos. O corpo: lugar das contradições, da convivência difícil da brutalidade e da delicadeza. O corpo dos homens, às vezes vivendo como animais. E o corpo, por exemplo, da égua, que desfila como uma modelo, com seus cabelos cintilantes e seu porte tão nobre. Todos lá, parecidos, como mostra a cena dos vaqueiros pelados dividindo um grande box para tomar banho. E todos tão singulares, donos de desejos que não cabem nas nossas expectativas batidas do que seriam o homem e a mulher no sertão nordestino. Existe, aliás, o homem? A mulher? Ou será que não deveríamos usar sempre o artigo indefinido. Um homem, como Iremar. Uma mulher, como Galega. Únicos, como é única a égua da linda cena em que é posta para dormir por um vaqueiro, numa cena quase que romântica.

Bia Macruz, a amiga com quem assisti esse filme, reparou na beleza da última cena: Iremar sai do espaço cercado onde estão os bois. Um final aberto, com essa janela para o desconhecido, já que o filme para por aí. Meu pai e minha madrasta, a quem recomendei Boi Neon, não gostaram. Acharam que há clichês às avessas em excesso. De fato, há mesmo, e eu só pensei nisso quando eles me disseram. Mas isso não mudou o que achei do filme, que me tocou tanto. Termino aqui tentando juntar a crítica de quem não gostou com meu fascínio diante de uma história que achei tão bonita: vivida fora do cinema, numa viagem que eu fizesse ao nordeste, a história poderia parecer forçada. Mas contada como foi, ela não me pareceu um excesso. O filme é, para mim, a resposta à afirmação de Galega ao ver sua filha desejar cavalos: há lugares em que sonhamos com o que dificilmente teremos. E um deles, para mim, continua sendo a tela do cinema.

Para viver essa difícil transição do sonho à vigília, essa música linda que faz parte da trilha sonora: https://www.youtube.com/watch?v=rV6LXhA3-Jc.

 

O Eco dos livros.

Morreu ontem Umberto Eco. Um dia alguém ainda vai escrever algo relevante sobre a morte em tempos de redes sociais. Há diversos fenômenos, no mínimo curiosos. Uma pessoa que morre e tem seu mural repleto de mensagens, como se o perfil numa rede fosse porta de acesso ao céu (ou ao desconhecido, àqueles que, como eu, não sabem nada sobre o além da vida). A morte espetacularizada, a morte como fetiche. E também o anúncio da morte como parte do currículo. Hoje mesmo, boa parte dos meus amigos se manifesta sobre a morte de Eco. Sinto-me, de repente, envergonhada, por não ter falado nada a seu respeito.

A verdade é que a morte de grandes figuras, como Umberto Eco, é sempre fato relevante. Mas a verdade também é que muitas vezes aprendemos que essas pessoas são grandes figuras sem que tenhamos tido o prazer de nos aventurarmos por seus livros, suas entrevistas, suas histórias. Vejam o caso de James Joyce. Sei que ele é um clássico e, no entanto, nunca li absolutamente nada do autor. Se ele ainda estivesse vivo e morresse amanhã, o que seria mais legítimo? Lamentar sua morte ou ficar calada, entendendo que ainda somos, eu e seus textos, desconhecidos?

Não li o clássico O nome da Rosa. E conheço pouco de Umberto Eco. Por isso, falo aqui da pequena parte do autor que me tocou.

Era o início dos anos 2000 e ele deu uma conferência, publicada em português pela Folha ou pelo Estadão, em que respondia sobre a questão do fim do livro.

O fim da literatura me parece o fantasma constante da literatura, ao menos da literatura  que existe desde o século XX. Com os computadores e a internet, a possibilidade dos livros se tornarem digitais, no fim dos anos 90, trouxe essa questão do fim do livro de papel. Em princípio, ela falava apenas do suporte do livro. Mas não se tratava só disso. O fim do livro de papel era visto, ao menos como cdf´s como eu, como o fim de uma era. Como se a inexistência de livros que pudéssemos sentir o peso, grifar, rasgar e até queimar significasse o fim da boa literatura, a vitória de um discurso da tecnologia e do progresso (viajamos sem sair de casa, tudo fica mais rápido, acabou o tempo que custa a passar) que aniquilaria a possibilidade da escrita, da leitura, da literatura, da crítica. Porque ler um livro num computador (me) parecia ler o livro num contexto de rapidez, em que a atenção flutua entre sites, músicas, programas e (um mero) texto.

Então eu li Umberto Eco. Eu, que na época conhecia tão poucos cânones da literatura e da crítica literária. E ele me disse, do alto da sua sabedoria, que o livro não ia acabar. O início da sua conferência afirmava que, quando ele respondia isso, as pessoas pareciam desanimadas. Porque havia, sobretudo entre os jornalistas, uma vontade louca de propagar uma notícia catastrófica. Mas que não, que o livro continuaria existindo.

Eu tinha 17 ou 18 anos e era um poço de angústias. Gostava de ler, de escrever, e queria estudar Filosofia. Esses apocalipses anunciados pela mídia e meu constante sentimento de peixe fora d´água deixavam minha vida muito mais dramática do que, de fato, ela era. A conferência de Humberto Eco me tranquilizou: os livros em papel não acabariam.

Desde o ano retrasado, há um comentário comum diante de mortes de grandes figuras, como, por exemplo, Manoel de Barros: aquele que afirma que o mundo ficou pior, que de fato vivemos uma época horrorosa, que chegou mais uma notícia ruim. Devo discordar. Todos esses, que contribuíram de forma positiva para nós, que continuamos amando livros de papel, morreram já com uma certa idade. Não foram mortes que lhes arrancaram da juventude.

O maior perigo, a meu ver, não é a morte destes autores, mas a morte daquilo que eles defenderam e nos deixaram. Por isso importa, mais do que homenagens apressadas de facebook, manter a paixão por seus livros e suas ideias. Hoje tenho a segurança de que o mundo pode piorar muito, mas ainda terei minha prateleira de literatura impressa no papel, garantindo um dos maiores prazeres da vida: ler. Acho o discurso que afirma o fim do livro, o fim da literatura, o fim da possibilidade da revolução, enfim, esse discurso catastrófico que afirma que nada de bom sobrou, de um vazio sem igual.

Parte deste perigo, também, é transformar grandes autores em capital simbólico dos nossos currículos e nada mais do que isso. Minha singela homenagem neste post agradece apenas àquela conferência. A Umberto Eco de tantos outros textos, não fica um adeus, mas um até algum dia. E a suspeita de que os grandes autores, como os livros de papel, nunca morrem.

Não é de hoje que me incomodo com termos que entram na moda e passam a ser usados sem muito questionamento. No feminismo, a palavra que mais me irrita é “empoderamento”. E antes que eu seja mal interpretada, o que me incomoda não é ver mulheres tomando as ruas, botando a boca no trombone, assumindo cargos de chefia ou criando coragem para sair de relacionamentos abusivos (outra expressão que, acho eu, mereceria mais atenção, para falar a verdade). Já perguntei a várias amigas e conhecidas o que significava estar empoderada ou empoderamento. Cada uma delas me respondeu uma coisa. Algumas respondiam falando de mulheres saindo de situações de submissão, mas outras consideravam como empoderamento mulheres postando selfies em redes sociais. Além da falta de precisão na definição, que começava a ser usada para dizer qualquer coisa positiva relacionada às mulheres, ficava também a falta de critério. Falar de mulheres negras que lutam por seus direitos e de mulheres brancas e bonitas que postam selfies é empoderamento e ponto final? Será que dá pra falar que o processo é o mesmo pensando numa mulher histórica e socialmente muito mais excluída e oprimida do que a outra? O termo é genérico demais e eu, enquanto não o decifro, continuo sem usar.

A lista das palavras que me incomodam é grande: miga (que me parece infantil e cria uma suposta intimidade esquisita), textão (que desqualifica o trabalho intelectual e faz elogio aos textinhos que, como lembrou um amigo meu, são coisa de publicitário), lacradora (que além de, como as selfies, me parecer muito ligada a uma cultura narcisista, me parece muito o nome daquela maquininha que se usa em lojas de departamento e supermercados pra fechar produtos) e, a que notei recentemente: problematizar. Mas antes que eu continue, faço observação importante: não desgosto das pessoas que usam esses termos. Muitas amigas e amigos usam e isso não diminui sua inteligência, integridade ou o que quer que seja. Eu mesma faço piadas, uso roupas, assisto séries e me torno adepta de uma série de modas sem muito questionamento. Esse post não é uma forma de apontar o dedo na cara de quem usa essas palavras, mas uma tentativa de pensá-las, entendê-las e questioná-las um pouco.

Diferente de alguns termos que citei acima, problematizar é um verbo com histórico maior. “O autor problematiza tal tema” é uma frase comum em trabalhos acadêmicos, por exemplo. A novidade, ao menos no que pude observar nas redes sociais, é que agora o verbo ganhou o substantivo. Quem problematiza é problematizadora ou problematizador. Além disso, o verbo tem uma nova definição. Problematizar pode ser questionar, criticar, debater. Mas pode ser também fazer isso de forma exaustiva, em situações que não são passíveis de serem criticadas. O problematizador é o crítico, mas pode ser excessivamente politicamente correto, o que, ao menos nos textos que ando lendo pela internet, é o mala, o chato, o baú sem alça, o cara pentelho que vem achar pelo em ovo.

Quando comecei o texto, falei de termos que vejo sendo usados por pessoas de esquerda, por minorias, movimentos sociais etc.. Empoderamento é usado por feministas, e eu entendo que feministas querem mudar a situação de um grupo que ainda é inferiorizado: mulheres e, ao menos no meu feminismo, mulheres trans, gays, negros e negras, refugiados etc.. Então, em princípio, eu entendo o seguinte: esses termos são usados por diversos grupos engajados, cada um na sua luta, que lutam por mudanças que possam favorecer pessoas que não são contempladas não só pela lei, mas pela situação atual. Mulheres não querem só a mudança da legislação brasileira, que pode tornar o aborto legal, mas também daquilo que não passa pela lei, mas que faz parte da cultura: cantadas no meio da rua, por exemplo. Entendo que a lei e a cultura deixam determinados grupos de fora, não os contemplam, e as lutas têm como objetivo a inclusão desses grupos. Lembrando que eu simpatizo muito com alguns franceses do século XX: são lutas daqueles que não são normais, ficam fora da norma. O moleque da periferia que merece apanhar da polícia ou ir prum presídio em condições horrorosas, a prostituta que pode ser violentada ao trabalhar, os maconheiros que merecem repressão da tropa de choque, as trabalhadoras negras que sustentam famílias fazendo trabalho terceirizado, os índios (que, como disse Bolsonaro, “não trabalham”) cuja cultura diferente é massacrada. São corpos que valem menos.

Pois bem. Tradicionalmente a esquerda e os movimentos sociais defenderam essas pessoas, esses corpos não contemplados pela lei e pela cultura dominante. Essa defesa passou por críticas a piadas, expressões, imagens, que riam desses corpos já excluídos. Quadros da globo que mostravam mulheres negras e pobres gostando de ser assediadas no metrô, estrelas de stand-up comedy falando de pobres e de negros de forma horrorosa e por aí vai. Nessas situações todas, os movimentos sociais, as minorias, enfim, todos aqueles que fazem parte ou falam em nome destes corpos que valem menos escreviam textos, faziam denúncias e campanhas. E a resposta de quem detinha o discurso normativo e opressor – por exemplo, Rafinha Bastos e Danilo Gentili, homens famosos, brancos, ricos e hiper midiáticos – continha a queixa do politicamente correto. “É só piada”, “vocês criticam tudo”, “seus chatos”. Atualmente, se leio uma matéria denunciando algum tipo de opressão, não é difícil achar nos comentários pessoas que dizem “hoje em dia problematizam tudo, qual o problema do cara dizer que tem orgulho de ser branco? qual o problema dela não querer que o filho seja gay? qual o problema dele dizer que só quer contratar garçonetes que sejam gostosas? que saco, essas pessoas só sabem problematizar”.

Esse é o ponto do meu post: estamos dividindo uma expressão com quem, historicamente, riu das nossas pautas e das nossas críticas. Estamos ridicularizando o exercício da crítica, do questionamento, da não aceitação dos discursos e das normas. Não vou ser hipócrita e dizer que apoio todo mundo que já vi sendo chamado de problematizador. Sim, leio denúncias e críticas que acho fracas e tenho a impressão de que, às vezes, algumas pessoas se preocupam em bater mais nos oprimidos do que dos opressores. Há atualmente uma grande patrulha na própria esquerda e nos grupos de minoria, e às vezes ela me parece um pouco exagerada. Não vejo o menor problema numa crítica ao Bowie, embora tenha achado os textos que li criticando as feministas que lamentaram sua morte bem fracos…O meu problema não era, no fim das contas, a possibilidade da tal problematização, mas o fato de eu achar que a problematização foi ruim.

Problematizo a problematização para que a possibilidade de problematizar continue existindo sem que a gente fique nomeando os críticos de problematizadores (desafio você que está lendo a beber três copinhos de vodka e falar essa frase 6 vezes seguidas). O que problematizo (fiquei viciada, rs) não é a possibilidade de criticar essas críticas em excesso que partem das minorias – tipo essa proibição do luto do Bowie. Problematizo nossa falta de criatividade, que adere a um léxico sem questioná-lo e sem se importar com o uso que já é feito dele. Eu não quero compartilhar vocabulário da moda quando ele já é usado por pessoas que discriminam gays e negros, que acham que machismo é delírio da cabeça de feminista e que acham que toda e qualquer piada e sátira é válida, por mais horrorosa que ela seja.

Ainda estou digerindo o fato de que a sigla PC significa, atualmente, politicamente correto e não Partido Comunista. E isso não quer dizer que eu faça elogio ao que foi a experiência dos partidos comunistas. Porque no fim das contas sou, com muito orgulho, e sem incluir nisso a parte depreciativa que o termo da moda contém, problematizadora.

Apêndice: só eu que me incomodo com o termo problematizar como ele vem sendo usado? Sim, só você, diva, rainha da nação, enfant terrible, garota prodígio, rosa do pequeno príncipe, última bolacha do pacote. Beijo, Brasil.