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Descobri, hoje, que tenho 98 textos salvos nos rascunhos desse blog. Alguns são curtos, começos de textos que não desenvolvi. Outros estão prontos e eu não publiquei porque desisti na hora H. Achei-os repetitivos e sem qualidade. No meio deles, há coisas que considero boas e que por alguma razão deixei de lado. Minhas reflexões sobre o Romero Britto, um texto longo sobre memes, mundo do trabalho dos jovens brasileiros e relações eróticas e uma comparação entre Elle e Animais Noturnos, apontando para o machismo e a banalização do estupro no segundo, não no primeiro filme.

Desconfio que, se não houvesse o facebook, teria publicado muito mais aqui. Nos últimos dois anos surgiu a palavra “textão” para falar de textos grandes feitos por lá. Odeio essa expressão, porque ela às vezes é usada no sentido depreciativo. Não que os textões que leio sejam todos bons, mas usar “textão” em vez de, sei lá, “textículo”, para falar mal de um texto é reclamar do seu tamanho. E quem lê fora do facebook e da internet sabe que tem muito texto bom que dura muitas páginas.

 

O fato é que aderi à moda de postar os chamados textões direto no facebook e comecei a questionar isso recentemente. Primeiro porque só pode ler quem está na rede social, que fagocita tudo que está fora dela, levando todo mundo a se cadastrar. Depois porque lá, ainda que eu não saiba quem de fato me leu, eu sei quem pode ler. Aqui, sempre teve mistério. Até hoje recebo comentários de posts antigos, de pessoas que acharam por acaso alguma coisa que escrevi e quiseram comentar comigo. O facebook aniquila essas surpresas boas, esse diálogo com desconhecidos.

Mas acho que não foi só por isso que decidi voltar. Andei tendo sonhos muito pesados nos últimos dias, eles ainda me perturbam. Dou muita importância aos sonhos. Acho-os fundamentais para pensar a literatura e penso que, a despeito dessa discussão mais teórica, eles são capazes de nos dizer o que não falamos em vigília. Às vezes eles vêm como dádivas e nos mostram alegrias que não conseguimos reconhecer.  Às vezes, talvez como dádivas negativas, eles mostram o tamanho do fardo que carregamos.

Hoje acordei sem vontade de levantar da cama. Não esqueci que o ar de São Paulo está muito seco e que isso causa uma espécie de depressão, mas também não consigo acreditar que o desânimo que sinto é só causado pela qualidade do ar. Tem dias em que me sinto sem nada. Nada de bom no passado, nada que possuo no presente, nenhum caminho pra encontrar alguma coisa no futuro. Daí, no meio desse deserto, eu lembrei desse blog.

Fiz esse blog há exatos 7 anos. Eu me achava velha demais com 22 anos e eu não fazia a menor ideia do que faria com a minha vida. Desde pequena eu gosto de escrever, mas durante a minha graduação eu passei a escrever apenas trabalhos acadêmicos. Em 2010, último ano da faculdade, eu resolvi criar um blog para falar de feminismo, novela e culinária. Contar isso já me faz achar que é um grande exagero achar que não tenho nada no passado. O blog me lembrou que eu gostava de escrever. Eu diria que o blog me abriu um caminho se eu não achasse que ele foi o próprio caminho. Eu acho que entendi isso quando escrevi esse post aqui, no ápice da minha confusão dos 20 e poucos anos. Reler esse post, aliás, me mostra que “nada” é uma palavra mais desonesta do que “textão”. É que quem, como eu, tem desejo de absoluto, sempre acha que tudo que é menos que o absoluto é nada.

Decidi ressuscitar o blog. Era isso que eu queria dizer. Faltam alguns meses para eu marcar minha qualificação e eu achei que precisava trilhar um caminho que não ficasse restrito aos domínios do Zuckerberg.

 

Antes que eu me esqueça: Fora Temer, mas isso é só a ponta do iceberg que já tá afundando nosso Titanic. Ainda bem que com 30 anos eu me sinto mais jovem do que nunca (apesar desse maldito ar seco e da conjuntura que dá vontade de cortar os pulsos) porque haja perna de pau pra virar esse jogo.

 

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E aqui um pedaço da minha rede, mais uma prova de que a palavra nada é muito desonesta para eu falar da minha vida em 2017.

[Antes do filme, dois parágrafos de devaneios feministas]

Começo esse post dizendo que ao assistir Elle, do diretor Paul Verhoeven, não fiquei mal e não achei o filme uma apologia do estupro, tampouco um reforço na cultura do estupro. E vejam, há muitas representações que a mim parecem contribuir para esta cultura. As fotos da Anne Guedes com bebês eu acho uma obscenidade, algumas novelas e séries da Globo, capas de revista para homens em que há uma pose clássica – a mulher de costas, de lingerie ou biquíni, com o pescoço torcido olhando pra trás, como que convidando o homem a abordá-la por trás, a invadir seu corpo – funks como o “Malandramente”, Luiz Felipe Pondé dizendo que o homem deve proteger a mulher, apelando pra instinto animal. Tudo isso eu acho que contribui para a cultura do estupro.

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Este filme, não achei. Também aproveito para dizer o seguinte: sou totalmente contra a ideia de que não devemos mais ter fotos, filmes, séries, obras de arte que tratem do estupro. O argumento principal contra esse tipo de exibição diz que a vítima pode reviver o que passou. Bom, talvez pudéssemos criar uma política de advertências – embora, como disse lindamente Roxane Gay, repetida agora livremente nas minhas palavras, as advertências parecem às vezes uma política de evitar o trauma e evitar o trauma é impossível, uma vítima de um trauma vai revivê-lo (aliás, é isso que faz dele um trauma e não um evento qualquer na sua vida). Mas eu sou contra pararmos de falar de estupro não porque não esteja nem aí para as vítimas. Eu sou contra justamente pelo contrário. É preciso que consigamos falar, elaborar o estupro. Essa prática recorrente, que violenta mulheres. Essa prática tão naturalizada em tantos discursos e ações. Tenho a sensação que a proibição desse assunto geraria o que vejo em muitas famílias – e eu tenho certeza que vocês já viram alguma família assim – em que um assunto tabu não é falado e as pessoas fingem que nada aconteceu (uma morte difícil, uma pessoa que usa drogas, um pai alcoólatra que bate na mãe, uma pessoa que teve algum tipo de surto, um amante que todo mundo sabe que existe etc). O que costuma acontecer é que o não dito tem grande peso. E esse peso, uma vez que não é nomeado, é vivenciado de outras formas: pânico, depressão, excesso de peso e, sobretudo, na repetição do assunto tabu, que em vez de elaborado aparece novamente realizado. Então, a meu ver, a melhor forma de combatermos a cultura do estupro é falá-la, criticá-la, trabalhá-la, discuti-la, e não o contrário.

[E agora um texto longo, porque estou cheia de coisas pra tentar entender]

Mas vamos ao filme. Eu achei um filmaço e ainda não entendi muita coisa, então deixo no blog pra ver se os leitores me ajudam a entender elementos que me chamaram a atenção. Michelle age normalmente depois de ter sido estuprada. Não chora, não vai à polícia, não treme, não muda de casa. A maneira como conta isso ao ex marido, à sócia a ao amante é tranquila. Sua vida continua e ela quer saber quem é aquele homem, que continua perseguindo-a, mandando mensagens e reparecendo em sua casa, mas nada disso interrompe seu trabalho, seu cotidiano. Ao fazer o exame de sangue ela se recusa a tomar a PEP, aliás, porque leu sobre seus efeitos colaterais e não quer que isso atrapalhe seu trabalho.

A indiferença de Michelle e o jogo que ela inicia com seu agressor poderia incomodar. Um estupro, no fim das contas, é uma experiência terrível passada por milhares de mulheres todos os dias. Mas, acho eu, é preciso olhar para o resto da vida de Michelle. Não há emoção, hesitação ou fragilidade em nenhuma das suas relações. Michelle trata tudo com frieza e objetividade. Se se vincula, e se sofre, isso não aparece objetivamente – e uma vez que o filme não recorre a recursos que expliquem sua vida interior, Michelle é uma grande incógnita. Não é só com o estupro que Michelle mantém uma relação fria e distante. É com seu filho, com seu neto que vai nascer, com seu ex-marido, com sua melhor amiga – esposa de seu amante, com quem ela tem relações sexuais sem demonstrar grande crise de consciência -, sua mãe, noiva de um jovem garoto de programa, seu funcionário Kurt, agressivo com ela no trabalho e seu pai, sobretudo seu pai, católico fanático que assassinou diversas pessoas quando ela era pequena e ainda a envolveu no final do crime.

A história do pai, aliás, parece uma boa chave para entender essa personagem tão intrigante. Aos sete anos Michelle foi fotografada só de calcinha e coberta de cinzas. Ajudava o pai, ensanguentado depois de matar várias pessoas do bairro, a queimar os móveis da casa e as próprias roupas, quando a polícia chegou e ela foi fotografada. Ao contar o motivo que levou o pai à chacina, Michelle adulta comenta que ele era católico fanático e que se chateou quando os pais do bairro impediram que ele seguisse entrando nas casas rezar (ou fazer algo do tipo, que agora me escapa) com as crianças. Quando conta a  cena dos dois queimando tudo, Michelle não relata medo, terror, insegurança. Ao contrário, fala da intensidade, de como foi tomada por aquilo.

Essa intensidade parece reaparecer em seu trabalho: dona de uma empresa de vídeo games, ela desenvolve, na época do estupro, um jogo em que o jogador pega uma mocinha e eles transam. O sexo, tal como aparece nas cenas que vemos, se parece muito mais com um estupro. Um monstro cheio de tentáculos que enreda sua vítima de costas e a penetra. Ao criticar uma das cenas desenvolvidas para o início do jogo, Michelle repreende seu funcionário. Se ele fizer a cena daquele jeito, os jogadores não terão uma ereção.

O primeiro game desenvolvido por Michelle foi, se não me engano, Cronos. Faria aqui uma hiper interpretação (com o risco de chutar pra fora do gol): Michelle passou por algo terrível na infância. Seu pai foi preso e ela foi conhecida como filha e cúmplice de um psicopata, torturada pela mídia – no filme, assistimos um trecho de um dos documentários feitos sobre o caso – e criada por uma mãe apresentada (e nomeada pela própria Michelle) como imoral, ninfomaníaca. Todos esses fatos poderiam deixá-la num eterno papel de vítima – e aqui, não discuto o fato dela ter sido, sim, uma vítima, mas no caminho tomado pela personagem. Em vez de vítima, Michelle torna-se uma heroína. O lado lúdico da terrível tragédia da sua infância reparece no seu trabalho: Cronos, o deus grego que devora seus filhos, vira vídeo game. O horror do mundo passa a ser jogável, fonte de diversão. Todo o massacre que ela sofreu nas mãos da polícia e da mídia – e acho que é preciso atentar à quantidade de cenas de tevê que aparecem no filme – leva-a a dominar o mundo das imagens, transformá-lo no seu trabalho, na sua fonte de dinheiro, no seu lugar de reconhecimento. E ela comanda isso – e sua própria história- com a frieza de uma personagem de vídeo game. Uma heroína, que depois de estuprada por um desconhecido, revive a cena imaginando como teria sido matá-lo usando objetos da sua cozinha.

Os novos encontros de Michelle com seu agressor, que acaba se revelando ser seu vizinho, se parecem muito com cenas de vídeo games. A protagonista compra um machado, um spray de pimenta, aprende a atirar. Os embates que ela tem com o estuprador, que a ataca novamente, são cheios de tapas, socos, sangue. A referência ao mundo dos games, presente no filme todo, e também a noticiários que mostram guerras e assassinos como filmes de ficção, talvez ajude a explicitar o que vemos em outros filmes, que escapam das acusações de machismo: o quanto estetizamos a violência e a perseguição às mulheres. Afinal, um filme em que há um estuprador que é morto ou preso, mas que antes disso bate e pega uma mulher pelos cabelos, não é também ele uma grande apologia do estupro? Os noticiários que vemos sobre massacres, chacinas e guerras também não banalizam a violência? Por que Elle incomodou tanto, mais do que tudo isso que vemos todo dia?

Talvez porque Michelle volte a se encontrar com seu vizinho, agora sabendo que ele é seu agressor. Mas aqui, eu faria duas ressalvas. A primeira delas é que a vontade de Michelle de rever seu agressor não atesta que ela queria vê-lo naquele primeiro ataque. Não coloca-a como desejadora de um estupro tampouco como provocadora daquilo – ao menos aos meus olhos. A segunda é que talvez Elle falando de estupro e violência se pareça mais com Bastardos Inglórios do que A lista de Schindler falando de nazismo. O que está em questão é menos o drama psicológico vivido por Michelle. Michelle é uma personagem de ficção, uma heroína que aprende a lutar, que reina sobre todos os homens, que não tem medo nem do seu estuprador. Ela dirige, chefia uma empresa, não chora na morte dos pais, não fraqueja, nem mesmo depois de ter tido sua imagem exposta de todas as formas desde a infância. Ao descobrir que um dos seus funcionários fez uma montagem maldosa com o game desenvolvido e uma imagem do seu rosto, ela lhe pede “mostre seu pau”. O jovem, nerd meio bobo que trabalha numa empresa de games, abaixa sua calça. A câmera nos mostra ele de costas (como a vítima do ataque do game desenvolvido), constrangido,  Michelle olhando friamente para seu pênis e concluindo que ele não era seu agressor.

Podemos discutir, claro, as ambiguidades da relação da protagonista, que mantém uma relação com seu agressor mesmo depois de descobrir quem ele é. As ambiguidades do desejo dela, o estranhamento que suas ações nos trazem. Mas, a meu ver, quando terminamos o filme não estamos diante de uma vítima que legitimou seu estupro, mas de uma heroína que dominou tudo aquilo que poderia fragilizá-la. Lembremos que seu ex-marido é sensível e chorão, seu ex amante termina o filme bebendo desolado ao ser largado pela esposa, seu funcionário super agressivo não a amedronta, seu filho tem um emprego péssimo, lhe pede ajuda para pagar o aluguel e vive levando bronca da namorada. Os homens, no filme, são todos uns bananas, uns fracos. E as mulheres, todas fortes. Lembremos também que os homens todos se preocupam com o fato dela ter sido estuprada, parecem ter uma sensibilidade maior do que a dela. E que seu estuprador morre porque seu filho, um viciado em X Box, entra no jogo e dá uma paulada em sua cabeça. Mas – e isso me intrigou muito – ao ver o que fez e ver o sangue sair da cabeça do agressor da sua mãe, o moço chora. Um viciado em games chorão que se sensibiliza com a violência e com a morte.

Queria entender melhor a presença do catolicismo no filme todo. Nas imagens do Papa na televisão, na religião da sua vizinha que, apesar de doce e super devota, lida com um sorriso no rosto e serenidade com a morte do marido – o homem de alma atormentada que Michelle soube cuidar, como ela mesma diz, revelando que sabia que o marido atacava Michelle – no crime do pai, no espanto do filho de Michelle (ao falar do papa descalço, uma figura daquelas aparecendo como um homem qualquer). Michelle me pareceu uma heroína construída num mundo de Sade e de outros autores que falam menos de sexo e mais da falta de limites de um mundo em que tudo pode acontecer. Não é curioso que uma esposa católica aceite com tranquilidade um marido estuprador e um pai religioso seja um serial killer? Se você entendeu mais sobre a presença do catolicismo neste filme, por favor, comente, estou intrigada.

Para mim, a arte não opera só mostrando a realidade como ela é, mas fazendo torções, realizando na tela o irrealizável fora dela. Elle me pareceu mais uma resposta à cultura do estupro, da violência, à barbárie praticada pela mídia, do que uma parte disso tudo. Não tenho dúvidas de que as mulheres são vítimas de machismo todos os dias, mas às vezes me pergunto se o lugar de vítima não se tornou o único lugar de discurso feminista possível, o que eu acho uma grande de uma roubada. Michelle, que recusa o lugar da fala confessional, da queixa, da fragilidade, é uma anti vítima por excelência, e se não é isso de forma alguma que espero ou exijo de mulheres que passaram por abusos, talvez seja isso que tenha me encantado na tela de cinema – que como um game, não precisa ser o retrato do mundo, mas uma grande interrogação sobre ele.

 

 

A internet, não tenho dúvidas, é um instrumento importante para iniciativas diversas; Uma delas é a divulgação de trabalho de pequenos produtores e profissionais autônomos. Conheço muita gente bacana que conseguiu montar seu negócio divulgando o trabalho nas redes sociais e não tenho dúvida que a possibilidade de falar para muitos sem gastar muito dinheiro democratizou em alguma medida o acesso à propaganda. Enquanto na tevê, só grandes marcas conseguem anunciar, no facebook e no instagram, basta fazer uma conta (pagando, é claro o preço de ter a vida nas mãos do Zuckerberg, mas isso é tema pra outro post). Hoje, no entanto, eu queria falar do reverso desse fenômeno, que venho observando em grupos do facebook.

Desde o início do ano, amigos me colocam em grupos de compra e venda, Basicamente: grupos com milhares de pessoas em que é possível buscar ou anunciar algum serviço ou produto. Estar nesses grupos poderia ser uma experiência sociológica. Como sou mais curiosa do que pesquisadora em sociologia, relato aqui dois acontecimentos recentes que presenciei antes de falar do mais importante: dots, o grupo do facebook que é na verdade uma rede afetiva.

Há poucas semanas vi uma moça jovem, mãe solteira, contando que fez uma encomenda grande de brigadeiros e levou o cano de quem havia encomendado os doces. Sua sorte é que uma outra pessoa se interessou e comprou os brigadeiros.

Recentemente vi uma menina que fez uma tatuagem que não parecia nada com o desenho pedido. O problema? Era uma tatuadora que ela conheceu no facebook. Não tinha estúdio direito, não tinha nota fiscal, não tinha nada que comprovasse a relação de contratação de serviço. E, por isso, seria muito mais difícil processá-la pedindo uma indenização.

Conto esses dois casos para ilustrar a complicação destas redes de contatos e de relações informais de trabalho. Tanto o cliente quanto o produtor/profissional que oferece um serviço ficam desprotegidos, sujeitos a canos, calotes e serviços malfeitos. O mais esquisito é que, quando os casos são relatados nos grupos, são iniciados verdadeiros júris populares. O relato é comentado por centenas de pessoas que se posicionam contra ou a favor de quem não fez bem o serviço/não foi um bom comprador. A pessoa que errou, claro, costuma se tornar uma vilã, xingada, amaldiçoada e banida do grupo. A pessoa lesada recebe conselhos diversos, porque nesses grupos há um leque grandes de posições políticas e há quem diga que “no mercado é assim mesmo”, assim como há comentários que afirmam “aqui devemos fazer diferente”.

Nessa linha do fazer diferente, surgiu o dots, uma rede que tem um grupo no facebook no qual fui colocada. Hoje, curiosa, fui ver do que se tratava. Deparei com um post inicial que ensinava as regras para postar no grupo. Uma vez que ninguém desautoriza que eu publique o texto fora da rede, deixo aqui alguns trechos das regras:

O dots é uma rede AFETIVA. Estamos aqui reunidos para que o dia-a-dia de todos seja melhor. Para tanto, escrevemos com GENTILEZA e não tratando a rede como se fosse um painel de anúncios classificados. (…) Depois da saudação, apresentar-se como PESSOA. Não adianta jogar no post seu produto ou o que você faz pois o dots é uma rede na veia da ECONOMIA COLABORATIVA e COLABORAÇÃO só acontece onde existe CONFIANÇA e confiança se constrói com RELACIONAMENTO. (…)A sua história é super bem vinda (assim como a história da sua atividade). Chama-se “Storytelling” e isso faz você e seu negócio serem únicos. (…) EXEMPLO ERRADO:
“CORTINAS SOB MEDIDA, 100% ALGODÃO, estampas exclusivas. SUPER PROMOÇÃO pague 2 leve três.
Curtam minha página (…)FEEDBACKS POSITIVOS são super bem vindos pois elevam a energia da rede. A energia negativa e a frustração dominam a vida de muita gente. O dots é um refúgio.

Vamos lá.  O dots não é uma rede de classificados. É uma rede afetiva. Isso mesmo. AFETIVA. Para mim, rede afetiva é minha família, meus amigos, meus contatos de trabalho de longa data com quem já construí junto coisas boas. Não um grupo do facebook que reúne gregos e troianos em pleno 2016. Na internet, palco de muitos conflitos e agressões, acho esquisito um grupo que se una por motivos profissionais/comerciais e que se proponha a ser uma rede afetiva. Não tenho dúvida de que é possível uma convivência pacífica entre pessoas cujas crenças e ideologias divergem. Recuso-me, no entanto, a construir rede afetiva com fãs do Bolsonaro, homofóbicos, racistas etc..

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Digitei rede afetiva e o google me deu essa imagem, sem brincadeira.

Mas como é uma rede afetiva, não uma rede de contatos de trabalho, as pessoas não podem simplesmente postar “vendo sofás com estofado de couro”. Porque é impessoal, sabe? É frio, é distante, é seco. Embora, todos saibamos, é isso mesmo! Eu não amo o dono da Samsung e ele não faz parte da minha rede afetiva, ele produziu o computador que eu comprei. Eu não sou amiga do dono da Parmalat, embora às vezes eu consuma produtos deles. Eu odeio a Nestlé, mas às vezes eu acabo consumindo coisas da Nestlé. E ainda que esses produtores todos dessas redes não sejam grandes empresários ou industriais, não detenham meios de produção, não sejam donos de boa parte do PIB do país, a minha relação com eles não é uma amizade. Porque o grupo não se chama “camaradas”, “tinder da amizade”, “gente feliz”. O grupo existe, no fim, para as pessoas conseguirem produtos e trampos. É isso.

Mas é feio dizer isso. É cruel. Por quê? Talvez porque seja a realidade nua e crua. Tá todo mundo ferrado e bora vender tênis, aula de cross fit e copo sustentável até a morte porque as regras da aposentadoria vão mudar. Bora se arriscar e vender bombom recheado em grupo do facebook sem a garantia de que o cliente vai pagar a encomenda porque os gastos sociais no Brasil serão congelados e a gente vai ter que pagar convênio de saúde. Bora trampar sem contrato de trabalho e anunciar alpargatas coloridas num grupo do facebook porque só o salário não tá dando para pagar as contas. Antes que me entendam mal: acho bem interessante que haja gente fazendo roupa, comida, livro etc. em pequenas empresas, porque esse pode ser um caminho interessante para pararmos de fortalecer grandes corporações, marcas de shopping com trabalho escravo. Meu ponto não é que essas pessoas existam e façam o que façam, minha crítica se dirige ao discurso de administração desta rede.

Como falar que estamos todos ferrados e mal pagos não combina nada com relações de compra e venda, existe a forma apropriada pra se apresentar. Que nada mais é do que uma estratégia de marketing. Que a Natura, a C&A e a Vivo também fazem chamando mulheres, negros e trans pras suas propagandas, porque eles perceberam que isso comove. Porque eles viram que falar de empoderamento aumenta as vendas (novamente, vejo um lado bem interessante desses comerciais também). Então a gente copia, mas copia dizendo que não tem nada a ver com isso. Que a gente acha bonito pintar jogo americano a mão sentindo o frio na espinha de quem não sabe se vai dar pra vender tudo e pagar a luz e a internet do mês. E que pra venda ficar boa mesmo, a gente conta a nossa história de vida. Isso. A nossa história de vida. Há uns dois anos li um artigo do Robert Kurz comentando a questão de gênero e o capitalismo. Ele percebia que os afetos, antes presentes da gestão do lar – feita pelas mulheres – agora estavam presentes no mundo do trabalho. Ser carinhoso, ter equilíbrio emocional, sorrir, tudo isso entrava no pacote de atributos de quem trabalha. A meu ver, Kurz não parecia gostar, mas indicar a nova faceta do capitalismo, que ao se apropriar de elementos domésticos/familiares, criava mais uma camada de exploração dos trabalhadores.

Lembrando desse texto e lendo as histórias de quem anuncia nesses grupos, fiquei pensando que esta rede afetiva, que parece se apresentar como uma reação contra o mundo cruel em que vivemos, nada mais é do que um fruto desse mundo. Seus participantes, claro, talvez estejam começando um caminho interessante de quebra do monopólio de grandes empresas. Mas sua administração segue a cartilha do capitalismo atual. Exige sorrisos, carinho, storytelling e – pasmem! – pede que os posts não contenham os preços dos produtos [afinal, faz parte do fetiche da mercadoria do mundo atual que ela se pareça mais um carinho, uma amizade, uma experiência, do que uma mercadoria – esse é o feitoço atual..o Itaú é seu amigo, a Unimed cuida de você, a roupa da Hering te abraça, o chinelo da havaianas te dá férias].

Pensar redes alternativas que seguem à risca as regras das grandes empresas e convocar as pessoas a se apresentarem sendo fofas e simpáticas me parece cretino. No final de 2016, é muito justo que as pessoas estejam bem irritadas, com medo, inseguras, e que tudo o que elas queiram ao trabalhar é receber dinheiro para pagar as contas. Eu não dou aulas pra fazer ninguém feliz e não sou uma amiga de quem quer falar francês. Eu sou uma professora oferecendo um serviço. Mas falar isso vende menos do que se eu falar que minha missão neste mundo é ensinar e criar diálogos delicados em que haja troca e amadurecimento, não é mesmo? O que eu quero dizer pra quem banca esse tipo de iniciativa (não estou incluindo os participantes, gente como a gente querendo se sustentar): enfiem o storyteelling no bolso pras duas mãos ficarem livres na hora de protestar nas ruas. A gente não precisa de rede afetiva, a gente precisa de uma rede política. A rede afetiva não vai barrar o que está sendo feito no Brasil, a rede política talvez. A ideia de uma rede afetiva surge, parece-me, como reação a um estado assassino, perverso e omisso (vejam o caso do Índio, morto no metrô de sp). Com um estado que não fosse assim talvez a gente não precisasse chegar a esse alto nível de exploração que exige de nós mais do qualificação profissional. Exige que a gente coloque à venda nosso carinho e nossa simpatia. Pesado. Feliz 2017 – num tom machadiano para quem segue defendendo projetos do capitalismo humanitário e num tom sincero para quem ainda acredita na luta de classes.

 

ps: como diria Valeska Popozuda, o meu sensor de marxismo explodiu.

 

 

 

 

Em julho deste ano, fiquei sabendo que o seriado Gilmore Girls ganharia 4 episódios especiais na Netflix. Escrevi este texto no site de amigos comparando a série que marcou minha adolescência com Girls, seriado recente. Acabei falando também do fenômeno dos youtubers.

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Esse post de agora dialoga com o texto anterior, mas grosso modo, o que eu tentei fazer em junho foi comparar as duas séries. Parece-me que em Gilmore Girls, realizada no início dos anos 2000, havia uma estabilidade totalmente perdida em Girls. Rory era a menina prodígio que terminava a última temporada como jornalista formada em Yale e conseguia um ótimo emprego. Em Girls, todas as temporadas mostram as trajetórias de jovens de Nova York que possuem bons currículos, mas não se encontram nas suas profissões e fazem muitos bicos. As histórias amorosas das duas séries também são bem distintas. Rory perde sua virgindade de forma super romantizada e tem sucessivos namoros, todos eles com declarações de amor e cenas de choro. Em Girls, ainda que haja histórias de amor, as relações casuais e confusas e as cenas de sexo menos idealizadas são frequentes. Fazendo essa comparação, acabei falando dos youtubers, que ganham a vida expondo sua intimidade e fazendo merchandising – isso tudo dá pra ler no link acima. Sem mais demoras, vamos ao que interessa: o que foram esses 4 novos episódios de Gilmore Girls.

Comecemos pela polêmica recente: ao saberem dos novos episódios, muitas fãs começaram a afirmar que Gilmore Girls havia sido um seriado feminista. Desconfio que essa afirmação não foi feita do nada. Nos últimos anos, pelo menos no Brasil, vi muitas mulheres aderindo ao feminismo, muitas campanhas, sites, aplicativos, blogs dedicados ao assunto, manifestações grandes contra medidas como as propostas pelo Eduardo Cunha (proibir a pílula do dia seguinte) etc. Essa onda feminista foi tão grande que hoje grandes marcas fazem campanhas falando do assunto. Outras minorias, antes menos presentes em campanhas publicitárias e mesmo em discursos de esquerda, também ganharam mais espaço (ainda que isso não signifique, nem de longe, o fim das opressões no Brasil): negros, trans e gays também passaram a ter mais voz e também aparecem em propagandas como as do Boticário. Nesse contexto, começou a história de que Gilmore Girls era feminista.

Fica aqui a minha modesta opinião: não! Um seriado que mostra uma mãe solteira que batalha a vida em plenos anos 2000 não é feminista. Quantas mães divorciadas, inseridas no mercado de trabalho, com vida sexual ativa e opinião própria havia há 16 anos? Que eu me lembre, muitas. Se pararmos para pensar, Gilmore Girls era uma série bonitinha, que mostrava a relação forte de uma mãe e de uma filha de classe média numa cidade em que tudo se passava muito bem (sem violência ou desigualdade social). Não havia nada de questionador ou subversivo. A virgindade de Rory, que era uma preocupação para sua mãe Lorelai, aliás, mostra que a lente do seriado não era lilás. A ausência do pai de Rory nunca foi um tema enorme nas temporadas e não aparecia como denúncia de um mundo em que mulheres fazem dupla jornada de trabalho e sustentam filhos sozinhas. Em vez de uma denúncia política, havia ali uma justificativa pessoal: Lorelai escolheu aquilo porque era aquilo que ela queria. Ela quis cuidar da filha sozinha. Foi ela quem afastou seu ex marido e decidiu pagar tudo – situação muito diferente da maioria das mães divorciadas que conheço. Além disso, vale lembrar que as outras minorias que ganharam mais espaço de fala nos últimos anos quase não existiam no seriado. Havia uma personagem negra e gay – Michel – ninguém muito pobre – Dean e Lane, que cresceram na cidade de Rory, mas não tiveram avós ricos para pagarem uma universidade cara nunca se revoltaram contra esse sistema das universidades americanas – e todos os temas de conversas sérias ou piadas tinham como conteúdo aquele mundo encantado de Rory e Lorelai. Vi textos mostrando que Lorelai era uma mulher batalhadora – e quem sou eu pra contrariar? – mas lembro que o seriado mostra a vida profissional de Lorelai e a vida acadêmica de Rory que só são possíveis graças ao dinheiro dos pais de Lorelai, casal super rico. Eu fui muito fã, mas não consigo ver todo esse feminismo ou engajamento que estão sendo vistos na série.

Mas chega de polêmicas de redes sociais. A temporada nova teve 4 episódios e, a meu ver, o melhor deles foi o segundo (a partir daqui tem spoiler). Rory se formou e arranjou um baita emprego. Acontece que agora, em 2016, as coisas não vão tão bem assim. Apesar de escrever como ninguém, ter uma ótima formação e excelentes referências, ela vive de freelas mal pagos, viajando de cidade em cidade e se hospedando na casa de familiares e amigos. Logan, seu último namorado da parte antiga da série, com quem ela decidira não se casar, mora em Londres. Os dois possuem uma relação que lembra mais os relacionamentos de Girls. Logan vai se casar com uma moça rica e tudo indica que o casamento é um grande negócio (o pai de Logan, lembremos, é riquíssimo, e quer casar bem seu filho). Ele gosta de Rory e ela gosta dele, mas agora eles não vivem mais um namoro romântico como na Universidade. Escondidos, sabendo que há outras pessoas em suas vidas e que eles não terão uma linda casa com lindos filhos, os dois se encontram, não sem algum incômodo de Rory, que não pode vê-lo ou ficar com ele quando quiser.

O segundo episódio me pareceu incrível e angustiante porque mostra Rory nessa relação -sem nome, sem garantias, esquisita e sem um futuro muito agradável – na sua saga em busca de emprego. A moça é chamada para escrever um livro sobre uma mulher muito conhecida em Londres. A mulher é uma celebridade muito instável, de gênio difícil, que combina o trabalho, mas não dá nenhum contrato à jornalista. Por que ela é uma celebridade? Não sabemos. Como muita gente famosa de hoje em dia, a figura polêmica parece importar mais do que sua obra. Rory lida com a instabilidade emocional desta estrela inglesa até ser dispensada sem ter ganhado um centavo. Ao tentar conseguir uma vaga num grande jornal, a jovem de Stars Hollow é incumbida de escrever uma matéria (obviamente não paga, afinal, ela deve mostrar seus talentos para depois ser contratada) sobre filas. Em Nova York, visita esse fenômeno que combina com a celebridade que a dispensou: jovens que acordam cedo e enfrentam filas quilométricas. Para onde levam essas filas? Para lojas. Uma padaria nova e seu cronut (croissant com donut, supra sumo da pâtisserie pós-moderna), a nova edição de um tênis, um encontro de adultos que fazem cosplay de desenhos animados, Senhor dos Anéis etc. Nesse encontro, aliás, Rory faz o que não fez em anos do seriado na sua versão antiga: tem uma noite de sexo casual com um adulto fantasiado de algum herói infantil – uma das melhores metáforas, eu acho, para falar do mundo de hoje, ainda mais quando o cenário é Nova York: onde dormem mais pessoas na rua do que em São Paulo (sim!) e os efeitos da crise de 2009 ainda são aparentes (frase anterior), pessoas que acordam muito cedo para pegarem uma fila e consumirem antes de trabalhar e que vivem as alegrias de uma fantasia de um mundo inexistente (por exemplo Harry Potter). Nesse mundo, Rory, uma boa jornalista que adorava literatura, não tem muito lugar. Sua tentativa final de trabalho no segundo episódio é aceitar um emprego num site de fofoca que convidava-a para ser uma integrante da equipe há muito tempo. A cena seguinte todo mundo já vivenciou: um prédio moderno, uma redação com cadeiras coloridas e na qual ninguém tem lugar fixo. Um cenário que nos faz pensar em palavras como workshop, start up, social media etc. Só gente jovem, com roupas informais. A editora informa Rory que lá não há mais essa ideia de hierarquia na empresa – e em seguida caneta o texto de uma das suas subordinadas. Em seguida, pergunta à jovem: diga-me por que vale a pena termos você aqui. Rory fica confusa  – não eram eles que há um ano insistiam para que ela trabalhasse no local? A entrevista é uma lástima, a empresa não a contrata e o episódio termina com a moça triste, voltando a morar na casa da mãe.

O mérito dessa reedição de Gilmore Girls está, para mim, neste final do episódio 2. Único episódio em que eu, aliás, me identifiquei com a série e entendi o que a Rory passava. Vi na Rory minha vida e a de muitos amigos: pessoas estudiosas que querem trabalhar e são mal pagas, não têm vínculo empregatício, fazem trabalhos horríveis para poder pagar as contas, sofrem ao pedir ajuda aos pais. Destaco aqui também a personagem Paris, amiga de Rory na Universidade. Formada em várias faculdades e trabalhando numa clínica cara de barriga de aluguel, ela sofre com o divórcio recente e a dificuldade de criar filhos. Apesar de dona de uma casa enorme e sem problemas financeiros, ela confessa a Rory que anda com uma mala que na verdade está vazia, só é usada para que as pessoas respeitem seu trabalho. O vazio da mala parece o vazio da sua vida – trabalhando muito, dona de uma casa, mãe, mas ainda assim extremamente confusa e infeliz.

Os dois últimos episódios da série  não funcionaram muito para mim. Tive a sensação que eles tentam restaurar todo o mundo perfeito de Gilmore Girls, estilhaçado no episódio 2. Lorelai tem uma pequena crise conjugal e sofre no trabalho, mas tudo se resolve. Rory, sem emprego, decide escrever um livro sobre a sua história com a sua mãe. Adivinhem o nome do livro? Gilmore Girls (oi, seriados americanos, isso já aconteceu de forma bem parecida em Dawnson´s Creek, vamos melhorar essa saída metalinguística de quinta, por favor?). Depois de romper com Logan (o ex-atual da relação sem nome), Rory visita o pai (que em algum momento dos episódios antigos ganhou uma herança e ficou rico) e conversa sobre a vida dela longe dele, sobre o que ele achava disso tudo. Última cena do último episódio: Rory conta pra sua mãe que está grávida. Para quem não sabe: Lorelai foi morar em Stars Hollow com a Rory pequenininha. Fugindo da família rica, ela chegou jovem na cidadezinha onde fez a própria vida com Rory. Conclusão pouco complexa: Rory vai ficar na cidade encantada de Stars Hollow e repetir a história da mãe – a mãe se casou com Luke, dono da lanchonete da cidade, e provavelmente Rory ficará com Jess, escritor, mas sobrinho de Luke!  Vai criar seu filho longe de Logan (o pai rico que casará com uma moça rica e gerirá as empresas da família) e terá com seu bebê uma relação intensa, cheia de amor e histórias que poderá virar o livro Gilmore Girls parte 2.

Sobre o título deste post: Gilmore Girls entrou no ar no mesmo momento da morte do Fidel Castro. Não me entendam mal nem me xinguem, mas eu fiquei relacionando os dois fatos e pensando como Stars Hollow e Fidel Castro morreram juntos e o que isso significa para a minha geração – e para os mais novos que, desconfio, estão tão ou mais ferrados do que eu. Não vou aqui entrar na discussão de Fidel assassino (sim, ele mandou matar gente) e ditador. Vou falar sobre uma das muitas coisas que a figura de Fidel representava: a revolução. Existe palavra mais bonita que essa? Muita gente da minha geração cresceu vendo Gilmore Girls. Às vezes acho que junto com o sonho de Stars Hollow – um mundo seguro e bonito, com gente feliz e namoros e empregos dando certo no final – também tivemos o sonho Fidel Castro: a revolução, não mais como horizonte, mas como passado já realizado. E mesmo no Brasil, em que nunca houve revolução, havia a sensação de que o pior tinha passado, que a ditadura era coisa vivida pelos nossos pais e que algumas coisas não voltariam nunca. Para esses sonhos do passado eu só digo quatro números: 2016.

O final de Gilmore Girls é absolutamente fake. E não é só fake porque mostra pessoas brancas, apoiadas por famílias com muita grana, numa cidade inexistente onde tudo vai bem. Ele é fake porque Rory tem a minha idade e, ainda que ela se esforce muito, não vai ter uma vida igual a da sua mãe. Porque os Estados Unidos sofreram a ação do tempo, porque quando ela se formou o presidente era o Obama e agora temos Donald Trump, porque seu sonho de jornalista (que não existia na sua mãe) está bem frustrado e porque junto com a palavra revolução, há outra que ficou fora de moda: emprego. Gilmore Girls era e é uma ilusão, não uma possibilidade do que o mundo pode ser, mas uma compensação do que o mundo já era: essa é a função da indústria cultural, não? Fidel era o símbolo de uma utopia de fato: há um lugar no mundo em que nenhuma criança dorme na rua (não estou aqui fazendo um elogio cego à Cuba, mas estou lembrando um fato inegável). Aos meus amigos que leram esse post enorme: não vai ser fácil.

A quem chegou até aqui e faz piadas sobre quem se diz de esquerda/comunista/socialista, a resposta que eu gostaria de dar esse ano todo: concordemos que a União Soviética ou a China estão longe de qualquer projeto de mundo melhor e entendamos que eu, ao menos, que sigo me declarando de esquerda, não penso nesses modelos. Agora me responda: você não sente falta de mais férias? Você não tem uma sensação constante de cansaço que não passa nunca? Você não fica meio p da vida quando boa parte do seu salário paga convênio de saúde, remédios, contas altas do supermercado e não sobre quase nada pra viajar? Você não morre de medo de perder o emprego e não conseguir mais nada, porque já tem uma certa idade? Você não acha estranho que uma boa parte da sua vida é o que vive quando consegue parar de trabalhar? Você não se apavora pensando no futuro, na sua velhice, no medo de morrer na miséria, sem ninguém te ajudando? Não é irônico, também, que você prefira sábados a segundas-feiras e sua vida tenha muito mais dias como segundas do que como sábados? Você não se assusta ou se chateia pensando que às vezes você paga um baita condomínio ou sucessivas corridas de táxi/uber à noite porque você quer segurança, porque dá medo viver numa cidade cheia de moradores de rua e pessoas miseráveis que podem te assaltar?  Você não fica bem irritado ou irritada quando liga no número da operadora de celular, aquela pra qual você paga caro todo mês, e ninguém te ajuda? E você já parou pra pensar que as pessoas que você xinga no telefone são trabalhadoras que ganham, provavelmente bem menos que você, pra ficar numa sala apertada fazendo um trabalho cuja formação foi horrível? Já parou pra pensar que o erro que elas cometem ao pronunciar seu sobrenome não é bem culpa delas, porque elas não puderam ter uma educação decente? E já parou pra pensar como seria melhor um mundo em que todo mundo pudesse aprender em escolas boas? E nos bancos que você tem conta, já te sacanearam? Já te cobraram taxas erradas ou quase ferraram sua vida? Já te deixaram duas horas esperando? E daí você lembra que no Brasil o governo paga juros beem altos pra esses mesmos bancos que ferram com sua vida, mas que agora você vai ter que trabalhar mais pra se aposentar porque ninguém quer pagar menos pros bancos e quem vai pagar o pato (fiz a piada irresistível!) é você? Você, no fim das contas, já parou pra pensar que eu, que me digo de esquerda, não penso em paredão, hipo consumo, ditadura (que também pode ser de direita, só pra te lembrar), mas apenas num mundo em que as pessoas possam trabalhar menos, ter acesso a saúde e educação públicas decentes, sofrer menos por causa da falta de dinheiro, ter menos medo da velhice, ter menos esse frio na espinha constante de ficar sem trabalho e sentir menos esse gosto amargo que a gente destrói nossa saúde todo dia enquanto uma elite bem pequena está viajando pelas ilhas mais bonitas do mundo todo?

Os quatro episódios estão lá. E se não há mais a palavra revolução, há a distopia do segundo episódio e a ilusão do episódio final. Se escolher ficar com a segunda opção, que te custou aqueles reais da mensalidade da Netflix, lembra de uma coisa: que a gente não é a Rory, não tem pai e avó ricos, não vive numa cidade encantada e não vai criar nossos filhos num mundo feliz e sem violências. E que pro cenário do segundo episódio, que é o nosso, e vai ser o nosso por muito tempo, a gente pode até recusar o Fidel com todo seu lado horrível, mas seria bom lembrar que há, em algum lugar da América, uma ilha em que ninguém mora na rua e ninguém passa fome.

 

[Eu sei que era pra ser um texto sobre um seriado, mas como disse um amigo meu, citando Antonio Candido, meu grau de marxismo varia conforme a conjuntura, e atualmente ele está altíssimo].

Sobre terminar o namoro.

Eu vou mentir pra vocês? Não, eu não vou. Eu quase chorei vendo o vídeo da Jout Jout contando que terminou seu namoro.

 

[Pois é, o ano está horrível, eu tive insônias, gastrites, ansiedade, pesadelos terríveis. Por causa disso eu me proibi de ler sobre os atentados de ontem ou sobre qualquer outra notícia política. Porque eu não estou conseguindo mais digerir. Porque eu ainda estou tentando entender o que aconteceu com o crápula do Renan Calheiros. E daí, por acaso, fui ver um vídeo da Jout Jout – não acompanho todos – e dei de cara com esse, de hoje, em que ela conta que ela e Caio terminaram. E quase chorei. ]

A grande questão é: por que quase chorei?

Primeiro, porque o vídeo é um vídeo feito pra chorar. Há uma musiquinha fofa e eles vão mostrando frases escritas nos seus braços, nas mãos, nas costas e nos contam – os dois! – que terminaram. Fosse um texto “terminamos, estamos bem”, a reação seria outra. O vídeo convida a gente a se emocionar. Lembrou-me muito filme de casal com final feliz, ou então esses vídeos que viralizam mostrando uma criancinha pobre que construiu a própria casa num país do leste europeu, conhecem? E todo mundo curte e chora, mesmo sabendo que tá cheio de criancinha pobre sem casa aqui em São Paulo que não nos arranca uma lágrima. Porque o que emociona não é a realidade crua da criança pobre, mas ela inserida num vídeo todo editado e com música pra chorar.

Daí tem esse detalhe, eles não falam! E eu imediatamente penso num nó na garganta típico de quando a gente tá triste e o choro vem no lugar da fala. E daí, percebam, eu já não estou chorando pela Jout Jout, mas por mim, por tudo que estou projetando na história dela.

Neste momento eu me lembro de outros términos. De amigas e conhecidas que terminaram seus namoros ou casamentos e de como aquilo me atingiu, sobretudo quando eu via a história de longe. De alguma maneira, eu via aquelas mulheres, cada uma de um jeito, e enxergava a foto de uma mulher destruída após o fim de uma relação. Se há uma vantagem do cinema em relação à fotografia é que no cinema as imagens se movimentam, mudam, se transformam. A fotografia te dá uma imagem que não muda.

Às vezes, na verdade bem de vez em quando, eu penso em ter filhos. Então me vem na cabeça o seguinte: quando meus filhos existirem, vou contar pra eles muito do que vivi. Essa história é uma trama que acontece sem a existência deles. E quando eles nascerem, estarão enredados nesta trama. Como eu, quando nasci, também estava- ainda que não soubesse. Porque ninguém nasce como o começo de um livro, ninguém existe do zero, todo nascimento é um fio novo num grande nó do passado.

Digo isso porque desconfio que essa fotografia da mulher abandonada exista há mais tempo que eu. É uma espécie de herança maldita que veio não só das mulheres da minha família, mas de todas as gerações anteriores à minha. Já rasguei, queimei, enterrei essa foto. Mesmo assim, de vez em quando ela volta. Ainda não conseguimos achar os originais e acabar de vez com essa imagem. E se me permito usar a primeira pessoa do plural é porque sei que essa batalha não é só minha.

Tem uma outra imagem circulando que difere desta foto que eu guardo aqui. É a mulher que sofreu, mas que sofreu por causa de um relacionamento abusivo – expressão que ficou famosa por causa de outro vídeo da Jout Jout. Essa foto tem sido muito usada e serve pra retratar coisa demais atualmente. Mas ela não me persegue. Porque se uma mulher consegue sair de um relacionamento machista ela está livre e mais feliz, a meu ver.

O que me persegue é a mulher que saiu de uma relação não abusiva, que já foi feliz. Aquela mulher que não saiu denunciando um namorado ciumento, agressivo, opressor. Ela não vai explicar tudo o que viveu dizendo que a culpa é do patriarcado. Ela viveu algo que foi bom e que acabou. E isso me dói. Mesmo quando isso me aparece num vídeo do youtube. Talvez o meu choro pudesse ter como resumo: as coisas boas acabam e isso dói.

Eu queria fazer alguns esclarecimentos e dar um conselho para quem chegou até aqui e se identificou com essa droga de imagem que eu não consigo destruir. O primeiro esclarecimento é: eu continuo namorando e está tudo bem. Minha família lê meus textos e às vezes infere coisas erradas. Eu não sou famosa como a Jout Jout e, se um dia acontecer alguma coisa, vou contar ao vivo e não vou postar no blog. O segundo esclarecimento: ainda que eu admita que as coisas boas acabam e isso dói, há um detalhe muito doido nisso tudo. Eu não me vejo nessa foto da mulher que ficou arrasada porque ficou solteira quando penso no meu passado. Mas quando o passado era presente, eu colei nessa moça. Tentei mimetizá-la durante anos. Por mais que relações acabem e a gente sofra, todavia, eu não conseguia falar que minha vida tinha desmoronado todas as vezes que uma relação acabava. Se eu já afirmei coisas semelhantes é porque eu passei a vida tentando ser essa mulher da foto. Já chorei e lamentei muito, porque de algum modo eu aprendi que era isso que eu tinha que fazer. E muitas vezes fui surpreendida por uma alegria que vinha antes da hora, porque eu achava que o fim de uma relação significava meses de tristeza.

Apêndice dos esclarecimentos: foram muitos anos até eu descobrir que tinha uma coisa boa nessa fotografia. A mulher sofria porque tinha perdido uma puta relação. E durante anos eu sofri porque via que a minha última relação tinha sido um lixo. Então eu chorava e sofria querendo imitá-la,. porque eu queria ter vivido uma baita história. Acho que vivi lutos vazios, porque eram lutos sem saudade, que pareciam mais um processo de auto destruição – como eu me envolvi com alguém assim? e outras perguntas que vocês conhecem. Não que as relações todas que eu tive tenham sido uma catástrofe, mas o que estou querendo dizer é que nem sempre eu saí frágil, sozinha, mal. Que muitas vezes eu saí de saco cheio, e que em quase todas as vezes eu saí pensando que aquilo não tinha sido um grande amor. Eu realmente não imagino que o luto da minha relação atual, se existir, será assim vazio. Então a fotografia continua, mas eu estou tentando melhorá-la no photoshop. A parte que eu recuso é essa que mostra toda mulher solteira pós namoro/casamento como uma infeliz e fracassada. A parte que eu decido manter é essa em que a mulher sofre porque ela viveu uma história bonita. Sentir saudades e chorar uma perda tem a ver com reconhecer que houve uma alegria no passado e isso é fantástico. Agora, com o photoshop aberto, eu olho para a Jout Jout, que condensa nela todas as mulheres que já figuraram este retrato que carrego, e depois de chorar sem entender, acho que consigo afirmar: não faço ideia do que ela está sentindo. Pode ser que ela esteja muito mal, mas isso é tristeza, não é o fim do mundo. E provavelmente o Caio está na mesma. Se não estiver, se não sentir um pingo de nada, ufa! Ela se livrou de um psicopata que não consegue ter vínculos com ninguém. Mas o mais importante que o meu photoshop ofereceu até agora foi uma mudança sobre a vida dela. É a vida dela. E a vida dela não acabou.

O conselho: leiam Homens sem Mulheres do Murakami. É uma série de fotografias masculinas que nos contam coisas que às vezes a fotografia da mulher sofrendo não nos deixa ver.

Conselhos de uma mãe feminista.

Minha mãe é feminista. Parou de militar faz tempo, mas se descobriu e participou de coletivos antes de eu nascer. Isso significa que em 1999, quando eu tinha 12 anos, ela já era feminista. Não havia esse espaço do discurso feminista apropriado por músicas, novelas e propagandas como há hoje nem havia as redes sociais, o que significa que ela foi minha primeira fonte de feminismo.

maefeminista

 

 

Só hoje, super adulta, entendo como fez diferença ouvir conselhos que ela me deu, que nem sempre vinham acompanhados de “vou te ensinar algo que aprendi com o feminismo”. Lendo a última polêmica feminista, decidi fazer aqui uma compilação de conselhos que eu ouvi e que tenho vontade de espalhar pra adolescentes e mesmo amigas mais jovens. Fica aqui a lista da (minha) mãe feminista. Que fique claro que ela não é universal, são coisas que minha mãe me falou e que podem ser diferentes do que outras mulheres pensam:

–  Menstruação, primeiro beijo, primeira vez, casamento e filhos são considerados marcos na vida das mulheres, ainda que nem todas casem e tenham filhos. Mesmo hoje, eles ainda são vistos como rituais que tornam a mulher uma verdadeira mulher. Isso  precisa ser relativizado e é preciso tomar cuidado, porque muitas mulheres vão tratar esses assuntos como símbolos da sua essência feminina e estabelecer uma competição com a amiga. A Simone de Beauvoir  no Segundo Sexo, livro que virou obrigatório para as feministas, questiona essa essência e a ideia de que uma mulher é mais ou menos mulher do que outra.Não é dando seu primeiro beijo ou tendo um filho que você vai se tornar mais mulher ou menos mulher.

–  Nós mulheres somos criadas para competirmos entre nós, mas é possível haver amizades femininas que saiam do registro da competição. Somos aliadas, não rivais.

– A primeira vez de uma mulher não precisa ser dolorida. Se há dor, poderíamos lembrar da dor do parto, que nunca é uma experiência só de dor. Você precisa querer aquilo, ter desejo, e uma dor com desejo será totalmente diferente e uma dor de pânico. Há feministas que defendem que as mulheres rompam seus hímens sozinhas antes de terem relações sexuais com mulheres ou homens. Isso não anula uma possível dor da primeira vez, mas pode deixar a pessoa mais segura.

– Uma vez que existe o desejo – porque nenhuma mulher deve cair no papo do homem que diz “ah, sempre vai doer muito, então tenha a primeira vez comigo” – pode ser que, mesmo assim, a mulher fique nervosa. Se for assim, vale fazer algo que ajude a relaxar, tipo beber uma taça de vinho ou viajar até a Holanda com o namorado e fumar um [a parte da viagem com a Holanda fui eu que sugeri agora pros conselhos correrem dentro da legalidade da república Temer]

– Dor no sexo, aliás, não acontece só na primeira vez, e não deve ser aceita passivamente. Em qualquer momento a mulher pode falar com seu parceiro do que está acontecendo e pedir pra ele parar.

– Falando em drogas, todo mundo têm o direito de experimentá-las e depoimento nenhum vai substituir a experiência. Mas se for experimentar, e isso inclui o álcool, esteja ao lado de amigos em que você confia! Garanta que, se você passar mal, vai ter alguém do seu lado pra cuidar de você. No caso da bebida, mesmo se você já tiver experiência, beba sempre água e beba de estômago cheio, isso faz muita diferença (prazer, Natália, foram poucas as ressacas muito ruins que tive na vida).

[Bônus da Natália: há muitas vítimas de estupro que não estão conscientes quando estupradas. A culpa NUNCA é delas e o estupro pode acontecer em situações inesperadas, mas ter pessoas cuidando de você quando você está inconsciente diminui o risco do estupro. Bônus 2: mesmo com todas essas precauções, se algo acontecer, a culpa é do estuprador, óbvio!]

– Pessoas que não entendem “como a pessoa engravida hoje em dia”, não entendem duas coisas. 1- Métodos contraceptivos podem falhar. Mesmo a mulher mais certinha e prevenida pode engravidar sem querer ou precisar tomar a pílula do dia seguinte. Isso não diz nada sobre ela e ela não merece ser punida por causa disso. 2- Estudos mostram que a maioria das mulheres que decide engravidar está em situação de dúvida. Mesmo aquelas casadas que já têm o enxoval do bebê e sonham em ser mães. Porque engravidar e ser mãe é uma baita mudança na vida e é normal que as mulheres hesitem depois de tomarem a decisão. Essa hesitação pode acontecer com mulheres que não querem ser mães, mas que engravidam porque se descuidam – nesse caso, pode haver um desejo de ser mãe que elas ainda não elaboraram. Nenhum dos dois casos deve ser exemplo para culpabilizarmos as mulheres quando elas hesitarem.

– Se depois da hesitação a mulher decidir fazer um aborto, isso não deve ser motivo de culpa. O grande problema são as clínicas, que podem ser perigosas para a saúde da mulher. E é por isso que devemos lutar pra legalizar o aborto no Brasil.

–  Já que estamos falando de saúde, pílulas podem ser super perigosas, sobretudo de a pessoa que usa fuma ou tem maior propensão à trombose. É muito importante investigar esses riscos antes de tomar anticoncepcionais.

– A pílula, num namoro, faz parte da decisão de um casal de não ter filhos. Por isso, é válido rachar o seu custo com o namorado.

– Mulher pode e deve comprar camisinha na farmácia.

– Já que falamos em saúde 2, não são só remédios comprados em farmácia que podem curar infecções e TPMs. Bem antes da Bela Gil e cia já havia Sônia Hirsch, que minha mãe me apresentou e que me deu ótimos dicas sobre saúde feminina.

– Se uma mulher tem infecção urinária e não tem acesso ao antibiótico necessário (numa viagem ou então num dia em que não consegue ir ao médico e descolar a receita), é muito importante: beber muita água, evitar pimenta e comer frutas cítricas e berries. Suco de cranberry é um remédio preventivo! Todas as frutas vermelhinhas são remédios contra a infecção urinária. É um mito achar que ela só é adquirida numa relação sexual. Biquíni molhado por muito tempo e segurar a vontade de fazer xixi pode deixar uma mulher com essa infecção. Infelizmente, temos muito mais propensão a pegar uma infecção dessas do que os homens. Os sintomas costumam ser dor ao ir fazer xixi e uma sensação de aperto que não passa. Muito cuidado, porque se ela não é tratada, pode ir pro rim.Ah, importante: você não transmite infecção urinária pro parceiro! Não é o contato com o seu corpo que vai deixá-lo com essa mesma infecção. O mesmo não pode ser dito de outras doenças, que ele pode passar pra você também.

[Bônus-conselho-da-filha: pode parecer meio mainstream demais num momento em que tudo é fitness, mas muita água, cenoura crua e musculação curaram minha TPM e me livraram de um combo de anti inflamatório e anti depressivo que uma médica para aliviar os sintomas disso que, infelizmente, algumas mulheres têm]

–  Não é verdade que as mulheres têm que ser inferiores aos homens. E é possível ser a melhor aluna da classe. Há homens que vão valorizar mulheres inteligentes

[Bônus da produção mãe e filha das cápsulas de auto ajuda: se o cara te colocar num pedestal alto demais ou se ele soltar frases como “você é tão inteligente, o que está fazendo comigo?” é bom se perguntar se a relação não é uma grande armadilha em que, depois de te idolatrar, o cara vai querer sair por cima. Grandes assimetrias nunca dão certo, não só no amor, mas em qualquer relação – palavra de mãe não mente, hein?]

–  Voltar pra casa à noite acompanhada é sempre uma boa. E às vezes vale gastar um pouco a mais de táxi ou dormir na casa de amigos do que se arriscar a fazer o caminho sozinha.

– A grande maioria dos homens que bate em mulheres ou namoradas costuma pedir desculpas com flores e muito arrependimento. Essas desculpas, no entanto, não costumam garantir que aquela seja a única vez em que a violência acontece. Por isso que o lema do feminismo já foi “quem ama não bate, quem ama não mata”. Não acredite nas desculpas de um agressor. Acredite que há homens que amam e não batem, isso sim.

 

 

 

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Último bônus: a mãe da minha mãe não era feminista. No entanto, sempre me contou que meu avô era um homem delicado e respeitoso que a tratou como princesa. Ela ajudou muito nessas cápsulas de auto ajuda familiares, porque eu precisei pensar muitas vezes que havia homens capazes de tratar bem mulheres, de amá-las e respeitá-las. Deixo aqui esta última sabedoria familiar para que relações com “os hômi” machistas ao extremo não sejam o destino das mulheres que se relacionam com homens. É preciso pensar em referências boas para construir destinos melhores que não nos coloquem sempre como vítimas, injustiçadas e agredidas. Política, para mim, continua sendo possibilidade de enxergar um futuro melhor. Acreditar que há homens bacanas, dispostos a se desconstruir e ter uma relação saudável, faz parte desse horizonte.

 

 

Conhecemos a história Um Bonde Chamado Desejo. E se não conhecemos, recebemos um pequeno roteiro na abertura da peça Blanche, de Antunes Filho, e somos aconselhados a lê-lo. Nove cenas que descrevem sucintamente a história criada pelo dramaturgo Tennessee Willians, em 1947, e transformada em filme pelo diretor Elia Kazan em 1951. Estamos diante de um clássico, recontado e reencenado muitas vezes nesses quase 70 anos de sua publicação. Na fala inicial, a atriz que abre a peça nos passa essas recomendações e nos explica que a peça será falada em fonemol, língua inventada por Antunes. Cabe a nós, expectadores, inventarmos nossa própria dramaturgia. Depois dos 5 minutos deixados para que leiamos o pequeno roteiro, a mesma atriz volta. Agora já não estamos diante de alguém que fala nossa língua.

Que língua é essa que nos escapa? No início, algo nos lembra o russo. Mas bastam umas poucas falas para que outros idiomas nos venham à cabeça. Stanley às vezes fala com a entonação de um brasileiro, embora traga uma braveza espanhola em alguns de seus atos. Blanche tem frases na cadência francesa. Stella e suas vizinhas nos lembram o italiano carregado. Vez ou outra, aparece-nos um som familiar: Blanche, Stanley, Stella, Eunice, Mitch, virgem, capricórnio, Código Napoleônico, coca-cola. São pequenos ganchos que nos situam no fluxo estranho do fonemol para depois nos jogarem de novo naquela língua desconhecida. Somos todos estrangeiros: nós, inventando conteúdos possíveis para algo que desconhecemos, e elas, as personagens, reencenando um clássico que conhecemos, mas tornando-o inapreensível.

Fonemol é um murmúrio. Língua cantada, cuja entonação da voz das personagens e o conjunto de gestos nos guiam para tentativas de compreensão do que está sendo dito. Diante dos diálogos, preenchemos as falas com conteúdos imaginados. Estará Blanche reclamando da precariedade da casa de Stella? Que nomes Stanley dá à cunhada que chegou? Quais frases Stella escolhe na tentativa difícil de conciliar o marido e a irmã mais nova?  Entendemos toda a peça. E no entanto, ela permanece um mistério. Nosso texto se arrisca, mas nunca nos autoriza a traduzir aquele significante. Na melhor das hipóteses, diríamos que tudo se passa como se, esse clichê que poderia ser legenda de toda obra de arte. Tudo se passa como se as personagens dissessem isso ou aquilo. Mas nada, nada nos autoriza a ter certeza disso. Estamos no terreno movediço da obra.

Nossa linguagem cotidiana tem, como notaram os leitores apaixonados do poeta Mallarmé, função de moeda de troca. Usamo-as para tomar posse e designar objetos e seres. Pois mesa é um som que faz alusão à mesa da qual falamos. E feio, bonito, fascista, imbecil, são nomes que damos para determinar algo que nos aparece. Palavras no seu uso corrente nos dão essa ilusão: conseguimos determinar o indeterminado que é o outro. E outro é tudo: os objetos, as pessoas, os fenômenos da natureza e tudo o que se apresenta fora de nós. Este uso empobrece a linguagem, cuja plasticidade é substituída por um sentido cristalizado. É isto e não é aquilo. Engessada, é ela que proferimos no dia a dia em que o mundo se apresenta como pronto, fixo, imutável.

Mas o mundo nunca está acabado. O mundo, fazendo uma leitura sem muita responsabilidade de Nietzsche e de muitos que vieram depois dele, é um livro falado em fonemol. Podemos conhecê-lo de fato? Provavelmente não. O que chega até nós é este murmúrio. Palavra cantada, conjunto de sons que não nos oferecem nada de fixo. Stanley e código napoleônico são indícios. Durante a peça, eles nos fazem sair da obra e voltar à terra firme das coisas que podemos nomear. Mas a obra ainda está ali e o murmúrio desconhecido volta, estremecendo nossas certezas.

O fonemol estremece, mas também nos traz a reminiscência de algo que a cultura nos fez perder. Sem sabermos o significado de cada palavra, olhamos melhor os corpos. Sua dança, suas hesitações, sua fúria. E ouvimos a voz, lembrando que também ela é capaz de dar sentido a este enigma que é o mundo. Na peça, temos a impressão de ouvir a mesma frase muitas vezes e de, no entanto, ouvirmos coisas diferentes. O que determina a carga da mesma frase  é a maneira como ela é dita. Blanche e Stanley podem dizer exatamente a mesma coisa. Mas nunca dirão o mesmo, uma vez que as palavras estão encarnadas em corpos distintos. Assim o corpo, que no nosso mundo explicado e fechado é só um portador da linguagem, volta a ser – como em todas as boas peças – parte dela.

Temos então o corpo de Blanche. Na peça de Antunes, Blanche é encenada por um ator e aparece em cena com o rosto pintado de branco, cuja maquiagem lembra um pouco um clown. O branco da face não é só alusão ao nome. Marca a diferença da mocinha recém chegada em relação às outras personagens: Blanche é um corpo estranho. Tennessee Willians publica a peça menos de dez anos após a morte de Freud. A psicanálise já não é novidade, mas o corpo feminino ainda é um escândalo. As histéricas enfim escutadas por Freud tiveram sua dor considerada. Mas são os anos 40 e as mulheres ainda não têm a liberdade que têm hoje. Hoje talvez seja forçado dizer que toda mulher precisa casar para sobreviver ou que toda mulher que frequenta o mesmo hotel com vários homens terá sua imagem arruinada.  Mas Blanche não é só todas as mulheres. Judith Butler diz que o feminismo não deveria ser só o movimento das mulheres, mas a luta em defesa de todos os corpos estranhos à norma. Os negros, os gays, os transsexuais, os refugiados. Corpos marginalizados, cujas palavras, longe de serem o murmúrio desconhecido da peça de Antunes, invadem e determinam: puta, viado, preto, traveco etc..

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A violência contra os corpos se dá na linguagem, mas não apenas. Tudo que é estranho à norma é violentado, estuprado. E aqui, não nos referimos só a essa atrocidade cometida contra mulheres, crianças e corpos frágeis há tanto tempo. O estupro, como coloca a citação presente no programa da peça, é “a representação crua e direta do exercícios do poder. Designa um denominador e organiza as leis do jogo para que possa exercer seu poder sem restrições” (Virginie Despentes, Teoria King Kong). Vivemos a cultura do estupro e consumimos uma cultura que, na sua essência, estupra-nos, como faz a coca-cola, grande símbolo dessa cultura que anula as particularidades de cada lugar se impondo como bebida universal, cujo nome se diz da mesma forma em todos os idiomas. Líquido corrosivo e viciante, representante da cultura de massas, desta produção anônima e devastadora que tenta, sem cessar, calar as vozes do fonemol.

O estupro de Blanche é, pois, o estupro que vai além da violência contra uma mulher. Estuprada, Blanche não consegue mais articular as palavras do fonemol e ouvimos, talvez, algo que precede a linguagem: vogal prolongada do grito de dor. Sofrimento que não tem nome, que a língua falada não alcança. E porque quase todos escapam aos ideais da norma, somos todos um pouco Blanche, e compartilhamos juntos essa dor inominável, guardando com a personagem essa posição de estrangeiros que não se aproximam. Não aproximação do estrangeiro: talvez a única maneira de manter a alteridade na sua radicalidade sem  submetê-la aos terrível poder da cultura e da linguagem.

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Ter assistido essa peça no dia em que o Ministério da Cultura foi extinto me provocou uma dor sem igual. Fica aqui minha aposta nessa arte murmurante que dribla a norma e nos faz experimentar o estremecimento do mundo. É ela que eu espero, como o murmúrio por vir nunca totalmente apreendido. Uma tímida esperança em tempos da palavra firme e violenta.